Logo na primeira cena de Corações Livres, que é a vigésima oitava produção a receber o selo dogmático, a diretora Susanne Bier quebra o voto de castidade do Dogma 95. Originado na Dinamarca, esse movimento criado por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg prega alguns preceitos para se fazer um filme "puro", como a ausência de trucagens de câmera, efeitos visuais, uso de artifícios como armas, iluminação, som apenas ambiente, entre outras coisas. Para alguns, os inventores do Dogma são verdadeiros gênios que revolucionaram o cinema; para outros, não passam de marketeiros. A verdade é que, com o passar do tempo, o Dogma 95 perdeu o frescor, e os próprios fundadores já abandonaram essa idéia e fazem filmes bem distantes da estética dogmática. No entanto, o movimento ainda sobrevive, e no momento conta com trinta e cinco produções, vindas de diversos países, como Itália, Chile, Argentina e Estados Unidos.A cineasta abre seu filme com imagens em tons de lilás, feitas com o uso de um filtro ao som de uma trilha sonora pop. Nada menos Dogma do que isso. Corações Livres deve ter recebido o certificado do Dogma, exibido no início do filme, por causa da forma cruel e sincera, sem meio-termo, que a cineasta usa para mostra que o amor pode nascer das situações mais estranhas e tudo tem um lado positivo. Cecilia e Joachim formam um casal verdadeiramente apaixonado. Logo após pedi-la em casamento, ele é atropelado e fica tetraplégico. Quem guiava o carro é Marie, que no momento discutia com a filha, Stine, e causou o acidente. Consumida pela culpa, ela tenta fazer algo para aliviar o sofrimento do casal, mas acaba jogando seu marido, o médico Neils, nos braços de Cecilia, que, por sua vez, está a cada dia mais deprimida, porque Joachim a evita constantemente. Isso, é claro, traz abaixo toda a estrutura familiar.Numa visão mais ligeira, o filme pode se assemelhar a uma lacrimosa telenovela. Mas acaba se impondo como um trabalho verdadeiramente humano e realístico, abordando uma visão dolorosa da dinâmica amorosa na vida das pessoas. Não fosse pelo acidente, Cecilia jamais conheceria Niels. Até o momento do acidente eles tinham relacionamentos estáveis, mas que foram desequilibrados por uma tragédia. O elenco é particularmente eficiente. Principalmente Sonja Richter, em seu segundo filme, que consegue mostrar com eficiência as dúvidas de Cecilia, que desprezada pelo grande amor de sua vida é obrigada a buscar consolo nos braços de Niels.O filme também traz Paprika Steen, no papel de Marie, uma das atrizes preferidas do Dogma 95, que participou de Festa de Família e Os Idiotas, entre outros.Em certos momentos, Corações Livres pode lembrar Ondas do Destino, de Von Trier, mas o filme de Bier é menos ambicioso - mas nem por isso menos eficiente. A tradução do título original seria algo como 'Sempre te amarei', que mostra bem as relações a que o roteiro se propõe dissecar
