18/07/2026
Drama

Espelho D'Água

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Mesmo antes das luzes do cinema se apagarem, o espectador sabe o que encontrará pelas próximas horas: um minucioso estudo das tradições nordestinas, somadas a belas paisagens da região. Mais do que isso, poderá sentir certo deslumbramento pela sensibilidade do diretor Marcus Vinícius Cezar em conseguir explorar todo o encantamento do rio-tema e as peculiaridades que dele emergem, sejam sociais ou místicas.

A escolha do cineasta em realizar uma produção quase documental, ao esperar que as pessoas "vivenciem o que o Rio São Francisco foi ao longo de sua história", prevalece por meio de uma trama cujos personagens são apenas elementos de cena para serem refletidos pelo rio. Aqui, vale mais o roteiro cultural, geográfico e musical, banhado por suas águas, do que propriamente um enredo coeso, ou uma rica proposta dramática.

No entanto, torna-se difícil diminuir as expectativas sobre o roteiro e, principalmente, sobre as relações humanas mostradas na obra, já que elas ganham importância no decorrer da história. Isto é, mesmo convidados a contemplar um Nordeste de sonho e de decadência, somos acompanhados pelos retratos das vidas que, muitas vezes, se sobrepõem à não-ficção. Eles correm paralelamente, se entrelaçando nas margens do rio.

Logo no início, nos deparamos com Sidó, uma misteriosa canoa de um pau só, que por meio de sua narração leva o espectador para um mundo limítrofe entre o místico e o real. Ela é amiga inseparável de Abel (Francisco Carvalho), que traz em suas lembranças traços de um rio que jamais voltará a ser igual. Por meio deles conhecemos Penha (Regina Dourado), representando a força da mulher nordestina e todo o imaginário popular das populações ribeirinhas.

Cada um deles se relaciona com o personagem principal: Henrique (Fábio Assunção), um fotógrafo que começa a se frustrar com seu trabalho. É nesse ponto que o diretor deixa claro que Espelho D'Água é apenas uma idealização que se faz do São Francisco, sempre mostrado como belo e estetizado. Esse é o trabalho de Henrique, porém suas constatações são cada vez mais distantes dessa idealização.

Enquanto parte para um jornada de descoberta não apenas do rio, mas de sua própria motivação pessoal, sua namorada, Celeste (Carla Regina), sai em sua busca, admirando-se com as tradições encontradas no caminho. Em cada parada de Celeste, o diretor explora toda a riqueza do trajeto do rio, que começa no coração de Minas Gerais e atravessa os Estados de Alagoas, Sergipe, Bahia e Pernambuco.

Se por um lado a qualidade da fotografia é irrepreensível, os diálogos e as próprias atuações - exceto as de Regina Dourado e Francisco Carvalho - são pouco trabalhadas. Outra exceção pode ser apontada na participação mais do que especial do ator Aramis Trindade, interpretando o hilariante Zé da Carranca, que dá fôlego às aventuras de Celeste.

Mesmo assim o texto se perde, com a tentativa do diretor em juntar diversos temas em uma mesma produção. A confusão e o descompasso entre ficção e não-ficção tornam-se gritantes no roteiro por causa do excesso de informação. Mas a beleza do Rio São Francisco se impõe acima de tudo.
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