21/07/2026
Documentário

Fahrenheit 11 de Setembro

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Concluído horas antes do embarque do diretor Michael Moore para a França, onde participaria do Festival de Cannes de 2004, Fahrenheit - 11 de Setembro desembarcou com poder de fogo bem mais eficiente do que as tropas americanas no Iraque. No final, a boa recepção do público - com direito a 15 minutos de aplausos entusiasmados - foi compartilhada pelo júri que lhe conferiu a Palma de Ouro. Agora chega ao Brasil com 50 cópias.

O novo documentário do premiado diretor de Tiros em Columbine consiste de uma longa e sólida denúncia contra o desastroso governo de George W. Bush para os EUA e o resto do mundo. A narrativa parte da fraude eleitoral que garantiu a vitória republicana em 2000 e que teve como ponto de partida o noticiário da Fox News - comandada por um primo de Bush Jr., John Ellis. Todas as emissoras de TV do país davam conta de que o democrata Al Gore havia vencido na Flórida - Estado governado por Jeb Bush, irmão de George W. - até que a Fox News começou a dizer o contrário. Um movimento que deu ensejo a diversas outras providências, como a anulação de votos de diversos distritos. Moore denuncia também a conivência dos senadores de todos os partidos, já que nenhum deles assinou a petição dos deputados negros que teria permitido uma investigação da fraude e, quem sabe, sua reversão. Pela lei americana, sem a assinatura de no mínimo um senador, esta investigação é impossível de ser realizada. Como foi.

Rejeitado por pelo menos metade dos EUA, o novo presidente tomou posse com um novo precedente histórico - foi o primeiro a não poder descer do carro oficial e fazer seu caminho a pé, entre os populares, até a Casa Branca. Naquele momento em que seu carro era bombardeado por ovos lançados por manifestantes com cartazes lembrando a fraude, a segurança optou por cancelar essa parte da cerimônia.

Uma vez no governo, segundo Moore, Bush Jr. mostrou-se mais inclinado a férias do que a qualquer outra coisa. Pescar, jogar golfe, passar temporadas em seu rancho no Texas foram muitas vezes suas ocupações predominantes. Sua preferência por uma agenda ligeira, porém, tornou-se simplesmente absurda no dia 11 de setembro de 2001, data dos atentados contra Nova York e o Pentágono. Naquele dia, Bush cumpria uma programação protocolar em favor de uma campanha de leitura numa escola primária na Flórida. O filme de Moore mostra o momento em que um de seus assessores o avisa, cochichando em seu ouvido, que um avião acaba de espatifar-se contra a primeira torre em Nova York. Bush permanece impassível, calmamente folheando um livro infantil na mão ("My Pet Goat" ou seja, "minha cabrinha de estimação"). Minutos depois, o mesmo assessor vem avisá-lo do segundo choque de avião contra a outra torre. A indecisão de Bush permanece ainda por longos minutos. Uma postura que Moore não deixa de classificar como indigna de um chefe de estado nessas condições.

Além de lembrar que Bush também não tomou conhecimento de relatórios dos próprios especialistas do governo americano que, já em agosto de 2001, alertavam contra a possibilidade de ataques terroristas nos EUA - um fato que recentemente foi alvo de uma investigação do Congresso americano - o filme desvenda uma suspeita rede de relações comerciais da família Bush e alguns de seus associados com empresários sauditas - entre os quais incluem-se vários membros da família Bin Laden.

Os sauditas, segundo Michael Moore, são donos de 7% da economia americana - o que significa uma soma de US$ 860 bilhões. Esses negócios vêm sendo sistematicamente empreendidos há vários anos, tendo a família Bush como associada em diversas empresas, ligadas por exemplo à extração de petróleo no Texas, onde Bush Jr. foi, aliás, governador.

Quando Bush Jr. governava o Texas, também visitaram o estado autoridades afegãs do Talibã. Naquele momento, estava sendo negociado um oleoduto de gás natural que viria do Mar Cáspio, cruzando o Afeganistão. Um negócio que beneficiou, segundo Moore, a empresa Halliburton, onde então atuava o atual vice-presidente Dick Cheney.

Curiosamente, nos dias que se seguiram ao 11 de setembro, nada menos do que 142 sauditas, 24 deles pertencentes à família Bin Laden, deixaram os Estados Unidos sem serem sequer interrogados. Especialistas do serviço secreto americano levantam sérias objeções a essa atitude, que pode ter levado ao ocultamente de informações vitais sobre o ataque a Nova York e ao Pentágono, em que a maioria dos terroristas era de nacionalidade saudita.

Deixando o 11 de setembro de lado, Moore aborda o atual impasse americano no Iraque. Deixa transparente a mentira do governo de que aquele país ocultava armas de destruição em massa - jamais encontradas -, critica duramente as medidas legais tomadas pelo secretário John Ashcroft dentro dos EUA, que mais levaram a uma caça às bruxas interna do que a qualquer informação concreta sobre os terroristas. Ouve, por exemplo, membros de um grupo pacifista da Califórnia, o Peace Fresno, que foram infiltrados durante meses por um agente, sem saberem. Também é entrevistado um idoso cardíaco, cuja casa foi visitada pelo FBI depois que ele fez comentários críticos sobre a investigação do terrorismo pelo governo numa academia de ginástica - por ter sido denunciado pelos próprios colegas.

Mas o depoimento mais contundente é mesmo o de Lila Lipscomb, que perdeu um filho na guerra do Iraque. Vinda de uma família de militares, Lila confessa que sempre detestou os manifestantes que promoviam passeatas contra a guerra, porque não conseguia entendê-los. Depois que perdeu o filho na derrubada de um helicóptero Black Hawk, passou dolorosamente a compartilhar de um sentimento em comum com os pacifistas.

Moore não comenta no filme a denúncia das torturas contra prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib. Em compensação, mostra imagens, filmadas por free lancers no Iraque, em que soldados tiram fotografias com prisioneiros encapuzados e humilhações semelhantes.

Talvez Moore vá ser criticado - e com razão - pela maneira irônica como retrata a coalizão que apoiou os Estados Unidos na ida ao Iraque e que inclui uma imagem de Nosferatu quando se menciona a Romênia e o suposto oferecimento de macacos pelo Marrocos para localizar minas terrestres. Fora isso, porém, não há muito a criticar em Fahrenheit .
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