Um homem casado enfrenta a tentação do adultério encarnada na pele de uma sedutora amiga. Com esta simples premissa, Éric Rohmer elabora um dos mais fascinantes exercícios de geometria amorosa, de todos os "Seis Contos Morais", o qual Amor à Tarde (1972) encerra. Muito além de sua tetralogia sobre as estações do ano, o roteiro questiona de forma hipnótica os sentimentos que movem o protagonista com precisão e fascinação.
Embora a simplicidade seja uma marca de seu trabalho, a sutileza de Rohmer faz explodir aos olhos do espectador um carnaval de tensões, em que a narração remete a uma imperiosa necessidade de afirmação (comportamentos, tomadas de decisão ou atitude), que legitime satisfatoriamente as ações do personagem. Aqui, trata-se de Frédéric (bernard Verley) e suas indagações sobre mulheres, monogamia e, como chama, sua "felicidade monótona".
Sem dúvida, os questionamentos de Frédéric são sensíveis à particular aliança entre sensualidade, inteligência e humor que cobrem todo o cinema rohmeriano. Em Amor à Tarde, o protagonista, que está feliz no casamento, segue pensando continuamente em outras mulheres. No entanto, uma certa impotência emocional o impede de se aproximar de possíveis amantes, sob a desculpa de não saber quais são as qualidades que o fariam se interessar por outra mulher. O que começa a perceber na sedutora Cloé (Zouzou).
Tema universal, que já contemplou outros de seus contos morais, como por exemplo, quando Daniel foge de Haydée, em A Colecionadora - mostrando que na rejeição também há fortes desejos reprimidos. E são esses sentimentos os chamarizes para a produção. Na ausência de erotismo externo, de paixão física, o emaranhado das relações entre homens e mulheres deixa, não obstante, uma certa sensação de emoções latentes ocultas, que não saem à luz. Um moralista consciente e um libertino inconsciente? Frédéric, nas mãos de Rohmer, tem pouco mais de uma hora e meia para responder a essa pergunta.
O diretor, um dos grandes nomes da Nouvelle Vague, nos trouxe diversas vezes um olhar investigativo lançado em direção às aflições e às dificuldades de relacionamento dos seres humanos, semeados por razões e referências de todo o tipo de índole (religião, política, arte, etc.). E seus contos morais são exemplos disso, tais como La Boulangère De Monceau (1962) e A Carreira de Suzanne (1963) A Colecionadora (1967), Minha Noite com Ela (1969), O Joelho de Claire (1970) e Amor à Tarde (1972).
Muito embora seus filmes tenham demorado para chegar ao Brasil, conseguiu conquistar um sólido sucesso nas salas de cinema nacionais, seja seus contos morais ou primaveris, seja as adaptações literárias e tramas históricas - como A Marquesa D'O.
Rohmer sabe fazer a mistura justa entre refinamento intelectual e o divertimento, provando que não são antagônicos. Sabe também compor personagens fascinantes, revelando novas cores para o romantismo. E em Amor à Tarde, mostra que seu trabalho tem a precisão de um cirurgião.
