Filmes sobre adolescentes costumam retratar a rebeldia e os conflitos dessa etapa da vida. Passagem Azul, de Yee Chin-Yen, não foge à regra. No entanto, o que difere essa delicada produção das demais é a maneira como a história de três adolescentes de Taiwan é contada. Ou melhor, como ela vai sendo lentamente apresentada ao espectador. Kerou é uma estudante colegial de 17 anos que tem como grande amiga a colega de classe Yuezhen. Juntas elas dividem as brincadeiras quase infantis, os segredos e os sonhos de um futuro adulto. As coisas começam a se complicar quando Yuezen pede para que a amiga lhe ajude numa conquista amorosa. O alvo é um dos garotos da escola, Shihao, que faz parte da equipe de natação e é bastante popular entre as meninas. No princípio, Kerou se recusa a ajudar a amiga, mas devido à insistência, acaba cedendo. O problema é que, envergonhada, Yuezen foge na hora de ser apresentada a Shiao, que passa a se interessar pela ocasional cúmplice.A história simples de um triângulo amoroso vai ganhando cada vez mais densidade com o desenrolar da trama. Chin-Yen transita por temas polêmicos, como a homossexualidade, com uma sutileza, que só mesmo os orientais parecem possuir. Em meio aos desencontros, as cenas se encadeiam quase como numa poesia, caso dos closes dos garotos em suas bicicletas. E é quando a câmera segue essas bicicletas que é possível notar uma Taiwan repleta de flores em seus jardins bem projetados em contraste com uma modernização descompassada. Não há como ignorar que Chin-Yen não bebeu da mesma fonte dos já consagrados cineastas taiwaneses Edward Yang (As Coisas Simples da Vida), Hou Hsiao Hsien (Adeus ao Sul) e Tsai Ming Liang (O Rio). Seu filme, que passou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2002 - categoria do festival que funciona como trampolim para muitos cineastas desconhecidos se destacarem -, também ressalta o embate entre as tradições orientais e o progresso capitalista da grande Taipei.Passagem Azul não deixa de abordar os problemas e as descobertas da juventude. As amarguras e dúvidas desde período estão presentes, mas bem longe de ter o peso de fitas como Elefante ou mesmo Aos Treze, que ressaltam os distúrbios de jovens desajustados. A cena de maior impacto, em que o conflito explode, não é recortada de diálogos. Os personagens apenas ficam se empurrando entre fileiras de cadeiras vazias de uma sala de aula. O suficiente para passar a emoção pretendida. Yuezhen escreve mais de duzentas vezes o nome do amado num caderno; coleciona bugigangas que o pretendente usou ou chegou a tocar - depois, ao se desiludir, queima todos os pertences do amado. Quem é que nunca passou ou presenciou uma cena destas na época das espinhas no rosto? Após assistir à Passagem Azul, é possível compreender que os dilemas da adolescência, além de serem semelhantes em diferentes culturas, são temas sempre atuais.
