O Diário da Princesa 2 é um daqueles filmes para público específico - com ênfase na palavra específico. É difícil imaginar alguém que não seja uma garota na faixa dos 12 anos achar muita graça nessa comédia meio insossa dos estúdios Disney. Ou, como psicólogos, educadores e pais vivem dizendo que as crianças são cada vez mais precoces, talvez esse longa seja destinado mesmo às garotinhas de 8 anos. Essa continuação passa longe do charme e da graça do primeiro filme, de 2001, que além de fazer a alegria da garotada se tornou um guilty pleasure de muito adulto.
Cinco anos se passaram desde quando Mia Thermopolis (Anne Hathaway, do primeiro Diário e O Herói da Família) descobriu que era neta da rainha um minúsculo país europeu chamado Genóvia, e que sua avó a rainha Clarisse Renaldi (Julie Andrews, de Mary Poppins) foi para os EUA para transforma-la em uma nobre. Agora, a garota acabou de se formar em ciências políticas e está a caminho de se tornar uma rainha.
Claro que ao chegar na Genóvia há, como sempre, as situações de peixe fora d'água - mas bem menos, se comparado com o filme anterior. Afinal, agora Mia recebeu educação para ser uma nobre. No entanto, pouco depois de chegar ao palácio, a garota descobre que por conta de uma obscura lei daquele país, nenhuma mulher pode assumir o trono se ainda for solteira. O Visconde Mabrey (John Rhys-Davies, da trilogia O Senhor dos Anéis) espera se valer dessa porém para coroar seu sobrinho Nicholas Devereaux (o estreante Chris Pine), que é um dos herdeiros do trono. Antes que isso aconteça, Mia tem um mês para achar um namorado e se casar com ele.
Como acontecia - e ainda acontece - com muitos nobres, a família real da Genóvia opta por um casamento de conveniências, afinal, é bem mais fácil arrumar um outro nobre supostamente idôneo e se casar logo com ele do que passar por todo o processo de se apaixonar, namorar etc. O 'escolhido' é o inglês Andrew Jacoby (Callum Blue). Mia parece mesmo se conformar com seu destino, aparentemente ela está mais interessada em ser rainha do que achar o verdadeiro amor. Mas, como num conto de fadas pós-moderno, ela poderá conciliar as duas coisas quando se vê apaixonada por Nicholas.
O diretor Gary Marshall (do primeiro Diário, Uma Linda Mulher) capricha na sacarina e na previsibilidade. Além disso, o roteiro de Shonda Rhimes (Crossroads - Amigas para sempre) transforma a carismática e divertida Mia numa personagem totalmente sem graça e charme. Fica difícil crer que a princesa se formou em uma da universidades top de linha dos Estados Unidos tamanha é a sua falta de bom senso. A Genóvia, por sua vez, parece estar vivendo uma espécie de revolução sexual tardia - quase 30 anos mais tarde do que o resto do mundo ocidental. De certa forma, Diário da Princesa 2 é um filme sobre o poder feminino - mas não muito, afinal é um filme da Disney e ninguém quer criar uma garotinha de menos de 10 anos reacionária.
Julie Andrews tenta ser impecável - na medida do possível, afinal, seu personagem é mal escrito e caricato. Anne Hathaway também se esforça, é bonita, talentosa e carismática. Mas está na hora de mostrar essa beleza, talento e carisma em um filme de verdade, com um papel de verdade. Ainda há esperanças para os fãs dela, ela acaba de participar do drama independente Havoc e no próximo ano será vista em Brokeback Mountain, de Ang Lee.
Diário da Princesa 2 acaba se tornando um daqueles filmes em que as pessoas riem dele, e não com ele. Há, por exemplo, uma personagem que literalmente sai do armário. Ela estava escondida dentro de um closet e sai de lá para assustar a princesa. Mas seria bem mais interessante se ela fosse uma homossexual que se assumisse. E as duas únicas sacadas engraçadas do roteiro - uma envolvendo os personagens shakespearianos Rosencrantz e Guildenstern, e a outra com uma das personagens mais famosas de Julie - correm o sério risco de não serem entendidas pelo público alvo do filme.
