O escritor e roteirista Marçal Aquino (O Invasor) e o diretor estreante Heitor Dhalia buscaram inspiração nas páginas do clássico Crime e Castigo, do escritor russo Dostoiévski (1821-1881) para criar o roteiro de Nina.Como os próprios criadores definem, Nina é uma releitura do clássico e não uma adaptação. O diretor conta que ficou muito impressionado com o livro quando o leu pela primeira vez, dez anos antes de conceber o filme. "A idéia surgiu sem explicação e tomou conta de tudo. Sempre fui fascinado pela psicologia dos personagens de Dostoiévski", disse Dhalia.O personagem título foi escrito especialmente para a jovem atriz paranaense Guta Stresser, que trabalhou ao lado do diretor quando surgiu a idéia de fazer o filme. "Acompanhei todos os tratamentos do roteiro", explica. Como o personagem do romance, Raskolnikóv, Nina divide as pessoas em dois grupos: os ordinários e os extraordinários. Ambos se enquadram no segundo grupo - e de certa forma, se legitimam a fazer qualquer coisa, inclusive matar.Nunca se diz de onde Nina veio, quem é ela, ou o que aconteceu até então para a garota ser como o é. Seu tempo é o presente - assim como o do filme. Morando em São Paulo e trabalhando como garçonete, ela aluga um quarto na casa de Eulália (vivida com assombro magistral pela veterana Myrian Muniz) - um cruzamento entre uma bruxa de conto de fadas e o avarento da história de Charles Dickens. Aparentemente, o único prazer de Eulália é humilhar a garota. Esta, por sua vez, deve ter alguma vertente sádica escondida em sua personalidade, pois por mais que sofra, não cogita abandonar a casa da mulher. A tensão entre as duas cresce a cada dia. Eulália chega a etiquetar todas as suas coisas na geladeira para que a menina não se alimente do que não é seu. Pressão por falta de dinheiro e a ameaça de expulsão da casa da velha acabam forçando Nina a cometer o crime. Então, entra em cena o castigo, que é mais psicológico do que físico. Tudo isso é muito bem ilustrado pela fotografia do veterano José Roberto Eliezer (A Dona da História) que dá um destaque natural aos tons mais escuros - envolvendo em sombras a trajetória da jovem Nina. As excelentes ilustrações do paulista Lourenço Mutarelli só corroboram com a confusão mental da garota, que extravasa as suas frustrações, ânsias e medos por meio de desenhos.
