08/06/2026
Documentário

Língua - Vidas em Português

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Na pré-história, o homem já emitia grunhidos para se comunicar. Mais tarde passou a se expressar com seus rabiscos nas paredes das cavernas. Todos aqueles símbolos cresceram, se ramificaram e deram origem a milhares de palavras, vocabulários e expressões. Nasceu a poesia, o trocadilho, a digressão e o pleonasmo. Então chegaram os tempos modernos, a era da incessante busca pela agilidade. A língua lapidada em milênios começa a ser tragicamente abreviada, compactada. "Estaremos vivendo um retrocesso, o retorno à caverna?", questiona o escritor José Saramago no documentário Língua - Vidas em Português, estréia desta sexta-feira.

Assim como Saramago, prêmio Nobel de Literatura, outras personalidades famosas e anônimas estão presentes no longa-metragem de estréia do diretor Victor Lopes. Sem pretensões de fazer um estudo lingüístico ou um traçado da história da língua portuguesa, o filme é um delicioso mergulho nas culturas que o têm como idioma. Depoimentos do colono e do colonizador, do imigrante e do músico, do cético e do religioso, revelam que as divergências sociais e a distância geográfica não desintegram a unidade da língua materna.

Filmado em seis países, Portugal, Moçambique, Índia, Brasil, França e Japão, o documentário deixa de fora nações em que o português é a língua oficial, como Angola, Guiné Bissau e Cabo Verde. Por outro lado, divulga a pequena Goa, cidade de colonização portuguesa situada no vasto território indiano, e também destaca o cotidiano de imigrantes brasileiros em Tóquio. São essas escolhas que revelam um roteiro sem marcações e cronologia. Apenas retratos da vida de transeuntes e figuras ilustres. O diretor faz mesmo como o escritor moçambicano Mia Couto ressalta no filme: "No fundo, não estás a viajar por lugares, mas sim por pessoas".

É difícil negar que dentro desse mundo lusófono - aproximadamente 200 milhões de pessoas - algumas cenas mostradas não evidenciem as diferenças coloniais. No invadido Grande Hotel de Moçambique, mas outrora glorioso, está um menino que sonha ser um cantor de rap, famoso como seus ídolos norte-americanos. No entanto, ele tem de deixar o sonho de lado e ajudar no sustento da numerosa família que não pára de crescer. Em outra tomada está um ex-criminoso convertido, pregando o Evangelho e vendendo balas dentro de um ônibus urbano no Rio de Janeiro.

Mas como não se trata de um filme político, os 105 minutos de película são entrecortados por preciosos depoimentos de Martinho da Vila, João Ubaldo Ribeiro e Teresa Salgueiro, cantora do grupo português Madredeus. Além da poesia da língua há a poesia da terra. A beleza do pôr do sol filmado em diversos cantos do mundo revela territórios belíssimos onde se ouve uma língua que é o oitavo idioma mais falado do planeta. Quem é lusófono, tem, pois, do que se orgulhar.
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