"Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências". Essa é uma das noventa e cinco teses fixadas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, no ano de 1517, por Martim Lutero. Ao tornar suas idéias públicas e criticar algumas condutas do clero, o reformador alemão acabou por provocar um racha na Igreja Católica, originando, mais tarde, a nova doutrina Protestante. Contar a história da vida deste religioso é a proposta do filme Lutero, do diretor canadense Eric Till. Para isso, ele gastou 21 milhões de euros, teve a co-produção financiada pela igreja luterana e escolheu um elenco de primeira. O personagem Lutero é interpretado pelo ator britânico Joseph Fiennes (Shakespeare Apaixonado), o ator suíço Bruno Ganz faz o papel do superior dos agostinianos e Peter Ustinov é Frederico, o Sábio, protetor de Lutero e príncipe da Saxônia. O resultado é um filme de aventuras, com belos cenários e figurino, no estilo de uma superprodução hollywodiana. Todavia, quem espera um retrato fiel da História, vai se decepcionar. Os episódios marcantes da Reforma estão condensados em cerca de duas horas de fita, o que resulta em um relato superficial dos fatos. Lutero cria um herói, defensor dos oprimidos e "salvador" do seu povo. Claro que a vida de Martinho Lutero foi repleta de méritos e controvérsia. Há quinhentos anos atrás, ele se rebelou contra o abuso de poder da Igreja Católica e censurou ferozmente atitudes do clero, como a aplicação das indulgências - tributação extraordinária que servia como uma espécie de perdão dos pecados ou uma forma de garantir um lugar no Céu. Esse inconformismo de Lutero é acentuado no filme. Mas vale ressaltar que pregar teses na Igreja era uma forma usual de anunciar uma "disputa" - uma discussão acadêmica. A atitude de Lutero estava conforme os costumes universitários medievais. Ao lançar suas 95 teses, ele tornava públicas suas idéias e não populares como o filme simplifica. Além disso, todas elas foram escritas em latim. Fazer um filme biográfico é sempre um desafio. Desde a escolha dos personagens, ao tentar se aproximar do biótipo autêntico, até o que se vai deixar de fora da história. Nestes dois casos, Lutero não acerta. O filme começa quando Martinho é atingido por um raio e acredita que recebeu um chamado de Deus, então, resolve ir para o Monastério. Ainda jovem vai para a universidade de Teologia, escreve as 95 teses, é julgado, excomungado e fica escondido, período em que traduz a Bíblia do latim para o alemão. O violento conflito que se alastra por toda Alemanha parece, no filme, provocado apenas por uma vilã igreja católica. São esquecidos os interesses políticos da nobreza alemã e a hierarquia social do Antigo Regime. Longe do alvoroço do filme de Mel Gibson, A paixão de Cristo, Lutero não deve provocar polêmicas. Mas ao lembrar a procedência de parte de seu financiamento, é fácil entender a característica panfletária da fita. Uma pena. Talvez com menor orçamento e sem amarras religiosas, o filme retratasse melhor esse período conturbado e rico da história.
