Inspirado numa notícia de jornal lida por Abbas Kiarostami - roteirista deste filme -, a história constrói-se em clima de máxima urgência. O protagonista é Hussein (Hossain Emadeddin), motoqueiro roliço e taciturno, entregador de pizzas em Teerã. O diretor Jafar Panahi (do premiado O Círculo) não teme começar o filme pelo final, chocante, e revelar em flashback como se produziu este triste destino.
Panahi usa Hussein como paradigma de uma sociedade contraditória e fraturada, pelas ruas de uma Teerã cujo trânsito caótico chega a surpreender mesmo os olhos treinados de moradores das grandes cidades brasileiras. Hussein mostra-se próximo da realidade brasileira em mais de um aspecto, representante de uma categoria que, no Brasil, ganhou o nome de "excluído". Ex-veterano da guerra Irã-Iraque, Hussein não herdou medalhas no peito e sim uma doença misteriosa que inchou sua figura, pois depende da aplicação de cortisona. Deslocado, sem profissão definida, ganha a vida como entregador de pizzas. Para complementar a pequena renda, rouba bolsas com seu futuro cunhado, Ali (Kamjar Sheisi).
A rigidez da religião muçulmana, no estado teocrático que é o Irã, não parece ter lugar na vida de Hussein, que mora num quarto despojado do conforto mais elementar, verdadeira caverna de um urso solitário, pragmático e sem sonhos. Traços autoritários na condução do cotidiano do país surgem nas situações vivenciadas pelo entregador, como quando ele tem sua noite de trabalho interrompida por uma intrigante tocaia policial diante de um elegante edifício, em cujo segundo andar acontece uma festa. Por motivos nunca muito claros, esta festa, ocorrida num apartamento privado, seria uma atividade clandestina. E as pessoas que saem dali são detidas, numa situação que lembra a arbitrariedade dos anos militares no Brasil.
O fosso que separa as classes no Irã é vislumbrado numa visita do entregador a um prédio de luxo, em que a solidão de um jovem abandonado por sua garota (Pourang Nakhael) o leva a convidar Hussein a entrar, compartilhando temporariamente a fartura de sua mesa e o luxo de suas lindas salas e da paradisíaca piscina com o atônito entregador.
O gatilho para a explosão de Hussein, no entanto, está em outra parte. Ele se ressente de sua invisibilidade social, quase tanto quanto de sua impossibilidade de uma ascensão por vias normais. A indiferença de um joalheiro (Shahram Vaziri), que o manda para o comércio mais popular da cidade ainda que ele se apresente como cliente e vestido com boas roupas, é a gota d'água. O assalto de Hussein e Ali à joalheria alcança a temperatura de um rancoroso acerto de contas.
Vencedor do Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2003, o filme confirma, contraditoriamente, a fama de maldito do cineasta Jafar Panahi em sua própria terra. Tal como O Círculo - em que expôs os dramas da condição feminina em seu país -, este filme não pode circular nas telas iranianas.
