27/07/2026
Drama

Má Educação

Dois jovens, Enrique e Ignacio, compartilharam uma dramática experiência infantil num colégio jesuíta onde a pedofilia de um dos padres, Manolo (Daniel Gimenez-Cacho), era um segredo mal-escondido. Separados um do outro por 16 anos, os dois se reencontram num momento em que Enrique tornou-se diretor de cinema e Ignacio, autor de uma história, intitulada "A Visita", que tem grande potencial para tornar-se um filme.

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Almodóvar pisa no terreno do filme "noir" e rende homenagem declarada à escritora americana Patricia Highsmith - de quem diz ter recolhido a inspiração para o personagem de Juan (Gael García Bernal). O diretor afirmou ter escolhido o Alain Delon que foi protagonista de O Sol por Testemunha para compor este personagem que, como uma femme fatale, semeia catástrofes ao seu redor sem que se saibam exatamente suas motivações antes do final.

A comparação com a femme fatale, de resto usada pelo próprio Almodóvar, torna-se tanto mais adequada na medida em que Juan aparece em boa parte do filme travestido como mulher, na pele de Zahara - esta por sua vez calcada diretamente em Sarita Montiel, de quem se vê uma cena no melodrama Esa Mujer.

O cineasta espanhol mergulhou fundo no poço de suas obsessões. Para aqueles que sentiam falta dos ambientes multicoloridos e dos travestis e marginais das produções do começo de sua carreira, Má Educação servirá a contento. Aqui, o diretor farta-se de sua própria velha cenografia física e dramática para contar a história de dois jovens, Enrique (Féle Martinez) e Ignacio (Francisco Boira), que compartilharam de uma dramática experiência infantil num colégio jesuíta onde a pedofilia de um dos padres, Manolo (Daniel Gimenez-Cacho), era um segredo mal-escondido. Separados um do outro por 16 anos, os dois se reencontram num momento em que Enrique tornou-se diretor de cinema e Ignacio, autor de uma história, intitulada "A Visita", que tem grande potencial para tornar-se um filme.

A história de Ignacio nutre-se profundamente do universo de sexualidade clandestina oculto no colégio católico, convertendo-se, assim, numa oportunidade para que os dois jovens exerçam um longamente adiado ajuste de contas contra o padre Manolo. Comandado por personagens governados pelo desejo do risco e imbuído de tantos componentes de melodrama - culpa, medo, raiva, paixões frustradas ou proibidas -, este noir almodovariano afasta-se decididamente da vertente de suspense de um Alfred Hitchcock - de quem se invoca a benção, porém, na música de Alberto Iglesias que inaugura os créditos do filme, colocados na tela como tiras de papel (ou de carne) rasgando-se em fundos que oscilam entre as cores branco, preto, cinza e vermelho.

A partir deste início, que prepara o espectador para o drama de tintas policiais que se apresenta a seguir, Almodóvar acelera o carrossel de referências cinematográficas e musicais numa velocidade que parece alucinante. Didaticamente, porém, coloca avisos no caminho, através das falas dos personagens, objetos de cena ou de trechos de música sugerindo ou esclarecendo o que se passa no interior mais profundo da narrativa. Talvez seja este recurso que distancia o espectador das altas emoções estimuladas mais livremente em Fale com Ela ou Tudo Sobre Minha Mãe. Aqui, até por se tratar assumidamente de um filme de gênero, com convenções a seguir, a qualidade desta emoção é de outro quilate.

Outro fator que proporciona distanciamento é que os personagens aqui não despertam a mesma empatia de filmes anteriores do diretor - também uma limitação do noir, que navega declaramente no submundo. O próprio Almodóvar explicou-o melhor na conferência de imprensa que concedeu no Festival de Cannes, em maio de 2004, onde o filme foi a atração de abertura: "O cinema consegue converter em espetáculo o que há de pior na natureza humana e é isso o que me atrai, o pior". Confessou-se admirador do cinema americano em que "o mal está alojado no interior dos personagens", onde coloca O Destino Bate à Porta, Anjo ou Demônio? e Amar Foi Minha Ruína. Também citou nominalmente o cineasta americano Nicholas Ray, em que "o pior está na relação entre as pessoas".

Falando nos aspectos pessoais da história, o diretor garantiu: "Não há episódios pessoais de minha vida aqui". Esclareceu que o aspecto mais pessoal desta produção é o modo como é narrada, embora tenha destacado que visitou e viveu por muitos anos em dois cenários que aparecem no filme: o colégio católico dos anos 1960 e a Madri exultante e livre dos anos 1980 (a ação do filme se passe um pouco antes, em 1977).

Abordando a pedofilia dentro da Igreja Católica, Almodóvar não crê que tenha feito um filme anticlerical. Mas ironizou: "Isso não faz falta. A Igreja degrada-se a si mesma cada vez que faz declarações à imprensa. Ao menos na Espanha, o pior inimigo da Igreja é ela mesma", declarou no festival francês.

Continuando o comentário, disparou: "Eu utilizo a Igreja como algo decorativo, certas figuras de santos, Virgens, Jesus Cristo. Como diz o Papa João Paulo II, o modo como a Espanha vive a religião é idólatra. Não há nada mais pagão do que a Semana Santa em Sevilha. Mas gosto desse modo profano. É o melhor modo de viver a religião". A razão do título do filme, segundo o diretor, baseou-se na educação que ele e outros espanhóis, mesmo de gerações anteriores, receberam, fundada no medo, no castigo, no sentimento de culpa. Para Almodóvar, "a educação perfeita para psicopatas. É um milagre que eu tenha crescido normal!".

Quanto ao abuso sexual de crianças, o diretor destacou que não fez um filme-denúncia nem nunca o pretendeu. "Falo disso como de outras coisas e sigo adiante. Parece-me tão óbvio dizer que é um crime horrível que tem de ser denunciado que não quis fazer disso o centro de meu filme".

Leia entrevista com o ator Féle Martinez

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