O primeiro dos seis contos morais produzidos por Eric Rohmer,A Padeira do Bairro (1963) é, sem dúvida, um dos mais preciosos de todos eles. Será nele que o espectador poderá presenciar todos os ingredientes do universo rohmeriano, retratados nas tentações libertinas de suas fábulas morais. Trata-se aqui de um curta-metragem, contando a história de um jovem estudante de direito em busca de sua paixão nas ruas de Paris. Como um espião, segue Jacqueline pelo bairro, envergonhado por não ter coragem de declarar seu interesse a uma desconhecida. Afinal, quem levará a sério uma súbita paixão de um transeunte?Quando finalmente consegue, por meio de um esbarrão, conversar com Jacqueline, ela o despista e desaparece. Os dias se passam, e ele vaga pelas ruas em busca de seu amor perdido. E num misto de sentimento de rejeição e rancor, começa a flertar com uma humilde padeira do bairro.O que poderia parecer prosaico, cotidiano, aos olhos de Rohmer é um exercício moral dilacerante. O rapaz não quer nada com a jovem Sylvie, que não resiste a suas investidas, cada vez mais ousadas. Sabe que suas ações são catolicamente incorretas, mas delicia-se em saber que inspira desejos. Ao mesmo tempo, tem ojeriza à idéia de uma pobre menina pensar que, talvez, um rapaz como ele possa sentir-se atraído. Tudo, portanto, soa como um passatempo, não uma escolha. Nesse nó de valores quebradiços, Rohmer explora a malícia juvenil, colocando os conflitos do estudante como base de reflexões sobre as relações humanas e a cultura francesa. Não se trata de nada didático. Exige do espectador certo cinismo para entender as motivações do protagonista. Talvez por isso Rohmer continue sendo tão atual.
