Para quem viu o filme em 1984, pode não haver propriamente muita novidade. Trata-se basicamente do mesmo (ótimo) filme que marcou a estréia dos irmãos Joel e Ethan Coen - o primeiro na direção, o segundo, na produção, os dois juntos no roteiro. Metódicos nesta divisão de tarefas, perfeccionistas ao extremo e estilosos obcecados, os Coen se tornaram a partir daqui um sinônimo de qualidade e vida inteligente no cinema americano. Por que então quiseram relançar o filme?Como sempre, eles são originais: fizeram uma versão do diretor que é mais curta (quatro minutos) ao invés de mais longa, como é de praxe. Revisitaram sua obra com olhos críticos e acreditaram que poderiam torná-la mais enxuta e ágil. Mas as alterações são praticamente imperceptíveis. Há uma nova abertura de um minuto, em que um especialista em restauração de filmes, Mortimer Young, fala da renovação técnica aplicada ao filme. Além disso, a mudança mais nítida está no som. Aproveitando uma tecnologia não disponível na época do lançamento do filme, o som foi transformado de mono em dolby digital 5.1, limpando os diálogos de ruídos, bem como potencializando alguns barulhos para efeito dramático: como numa cena em que um personagem chuta um revólver e o som parece de um tiro. Fora isso, novas faixas foram acrescentadas à sinuosa trilha sonora de Carter Burnwell (outro que pôs o pé na profissão neste filme).Outro aperfeiçoamento de luxo está na restauração da bela fotografia de Barry Sonnenfeld (mais um estreante aqui, bem antes de dirigir A Família Addams e Homens de Preto), cheia de luz e sombra, que remete ao cinema noir e ao expressionismo cinematográfico alemão quase em doses idênticas.Os Coen são igualmente bons alunos de Alfred Hitchcock para compor este roteiro, descarnado e intenso. Uma mulher casada, Abby (Frances McDormand, também estreando como atriz) está fugindo do marido, Marty (Dan Hedaya), violento dono de um bar no Texas. Seu parceiro na fuga é um dos garçons, Ray (John Getz), que sempre teve uma queda por ela. O quarto participante fundamental da trama é o detetive que o marido contrata para seguir e, depois, matar os dois (interpretado pelo impecável M. Emmet Walsh).Montado este cenário básico, o que desata os nós e faz correr copiosamente o sangue do título está na sucessão de erros que os personagens cometem - esta uma das temáticas favoritas dos Coen. Um corpo aparece e desaparece, os sobreviventes suspeitam um do outro, as tocaias se sucedem e o instinto de sobrevivência dos que ficam de pé é levado às últimas conseqüências. Aqui, os Coen mostraram a que vieram e demonstraram que sabiam usar as lições de todos os filmes que, com certeza, assistiram para compor a sua versão. Assim instalaram uma marca que frutificou magnificamente em filmes como Arizona Nunca Mais, Ajuste Final, Fargo e O Homem que Não Estava Lá. Espera-se que este sólido talento não esteja perdido. Afinal, Matadores de Velhinha não valeu.
