Conhecido por obras como O Sucesso a Qualquer Preço, Homicídio, Oleanna e o recente O Assalto, Mamet domina como poucos a escrita de um filme. E não raro dá um show de técnica, especialmente nas reviravoltas e diálogos cortantes, uma arte que está se tornando escassa na grande indústria de Hollywood, por falta de procura, apenas. Nem Mamet, nem John Sayles nem Woody Allen - para citar alguns grandes roteiristas e dialoguistas americanos - são jovens e isto, numa indústria voltada para o entretenimento adolescente e descartável, é pecado mortal.
Spartan, novo trabalho de Mamet, é mais um típico produto de seu fino atelier - que tem a vantagem de procurar ser também entretenimento. Os vôos da imaginação adestrada do diretor-roteirista propõem um jogo ao espectador que é pura diversão, do tipo mais refinado, que exige concentração, mas tem altas compensações no final da viagem.
O protagonista é Scott (Val Kilmer), um duro oficial que trabalha em treinamento de pessoal no serviço secreto e também atende missões especiais. Neste momento, ele é convocado para uma empreitada especialíssima: descobrir o paradeiro de Laura Newton (Kristen Bell), filha maluquinha do presidente americano, que foi seqüestrada. Desde o começo, algo estranho parece estar acontecendo. Os próprios bastidores do serviço secreto, comandado por Burch (Ed O'Neill) e Stoddard (William H. Macy), não são exatamente um habitat muito saudável para ninguém, nem mesmo seus agentes.
Enfrentando a engenharia sofisticada dos diálogos de Mamet, Val Kilmer encarna satisfatoriamente o oficial durão e solitário - daí o título do filme, que remete a "espartano", em português. Kilmer dá consistência à figura deste herói ambíguo que decide procurar a todo custo uma verdade cujo esclarecimento não parece ser do interesse de ninguém, exceto ele mesmo. Ou será ele apenas um obcecado, alguém que perdeu de vista a própria sanidade ? Mais do que descobrir o destino da moça desaparecida, que pode estar nas mãos de traficantes de mulheres em Dubai, o que está em jogo é o controle do Poder, com "p" maiúsculo - um mundo clandestino em que os indivíduos interessam muito pouco a quem dá as cartas, típico tema mametiano.
