Embora dirija filmes desde a década de 80, muito pouco se escutou falar da diretora italiana Cristina Comencini no Brasil. Suas produções nunca chegaram aqui, a não ser em festivais internacionais, nos quais não teve qualquer destaque. Os motivos são os de sempre: seus filmes não teriam apelo comercial e dificilmente uma distribuidora investiria em uma produção com atores tão desconhecidos quanto quem os dirigiu. Por isso, será muito difícil para o espectador perceber que O Mais Belo Dia de nossas Vidas é uma das obras mais convincentes de Cristina Comencini. Mesmo centrando sua atenção na história de uma família em crise, a diretora deixa para trás o que é clichê e repetitivo, entregando uma obra envolvente e honesta. Numa linha tênue entre a comédia de costumes e o drama familiar, a produção encanta pela simplicidade de seu desenvolvimento. Por meio do olhar curioso da pequena Chiara, conhecemos uma família em estado de alerta. Seus pais estão prestes a se separar, sua irmã não tem perspectivas de vida, sua tia solteira não consegue conversar com seu filho adolescente e seu tio Cláudio é um homossexual em conflito. Resta apenas sua avó, uma mulher austera que não tem qualquer tato para falar com os três filhos. Todos esses problemas estão ligados, aos olhos de Chiara, graças a um pedido que fez a Deus perto de celebrar sua primeira comunhão: ele precisa dar um jeito em tudo. No entanto, as relações se complicam ainda mais e ela passa a sentir-se culpada. Enquanto as desgraças se avolumam, a família tenta entender como chegou a esse ponto. O que não é possível sem rever o passado dos personagens, formados a partir de uma educação baseada num amável conformismo, que os distancia uns dos outros. Com o objetivo de descrever as intermitências emotivas humanas, Comencini esteriliza seu roteiro de tons excessivamente trágicos, alimentando-se de um humor moderado, mas eficaz. Não faltam toques de ironia no texto, em geral crível e ágil, potencializados pelo excelente trabalho dos atores. Trata-se de um filme amável para uma sessão descompromissada. Uma história sobre o que é o amor, seja ele fraterno, maternal, de "salvação" ou "perdição", como diria o escritor português Camilo Castelo Branco. Querer algo a mais do que isso pode ser exigência demais.
