Falando das greves dos metalúrgicos do ABC, em 1979 e 1980, ele escapa mais uma vez pela tangente, escolhendo os ex-grevistas que não se instalaram nas diretorias sindicais, prefeituras e partidos políticos. Prefere aqueles que continuaram sendo trabalhadores simplesmente, em vidas que deram reviravoltas, com o retorno à terra de origem, no Ceará, ou o risco de um sonho, como do pequeno empresário Miguel do Forró, que saiu da fábrica e abriu um salão de danças. Em suma, filma os pequenos que escolheram ser pequenos ou não puderam deixar de sê-lo.
É dessa gente miúda à primeira vista que Coutinho, o mais renomado documentarista do país, extrai a grande História. Tira do anonimato rostos não famosos, recolhidos em álbuns de fotografias e filmes da época - como ABC da Greve, de Leon Hirzman, Linha de Montagem, de Renato Tapajós, e Greve, de João Batista de Andrade - e constrói, a partir de 21 personagens (de 50 entrevistados) o fio de uma mudança radical na história do Brasil. O fim da ditadura militar, a luta pela democratização e as eleições diretas, a formação do líder Luiz Inácio Lula da Silva, o desemprego, a globalização, a terceirização estão no fundo de todos os relatos, onde não falta, como sempre nos filmes do diretor, o contexto familiar e afetivo de cada pessoa.
Os personagens em Peões são tratados pelo primeiro nome, o que faz com que conquistem a imediata intimidade com o espectador. São vistos nas salas ou cozinhas de suas casas, ou num bar da esquina que se parece com todos os bares, de todas as esquinas do mundo - uma pista de que o que é muito particular, na verdade, é também universal, marca da maestria delicada de Coutinho. Filhos e mulheres dos trabalhadores são também convidados a darem seus palpites, deixando entrever a continuidade dessa história que começou em 1979 e não parou. O balanço dos que falam para a câmera dá conta do retrato de uma elite do operariado que, num momento único, tomou seu destino com as próprias mãos e teve condições de mudá-lo. Um tempo que passou. Geraldo, o soldador que finaliza o filme com uma definição que explica o seu título, deixa bem claro que não quer que seus filhos sejam peões. Há bravura, consciência e alguma melancolia neste retrato vívido dos trabalhadores do ABC.
