O retrato vivo e pulsante desta tragédia contemporânea é Lilya (Oksana Akinshina), de 16 anos, na tela e na vida real quando fez o filme (há dois anos) - uma das razões da total identidade entre a atriz russa e sua personagem, uma adolescente deixada para trás pela mãe (Ljubov Agapova), que embarca para os EUA com o namorado (ou explorador, como o resto da história encoraja a suspeitar).
O fato é que Lilya fica à mercê da própria sorte, sem família (a tia também não lhe dá assistência por muito tempo), amigos ou qualquer opção de sobrevivência. Não consegue permanecer na escola e a porta mais fácil que se abre a uma menina bonita como ela é a prostituição. Seu único amigo é o garotinho Volodya (Artiom Bogucharskij), outro abandonado pela família que sonha com ícones americanos, como Michael Jordan.
Se tem força humana, também por conta da energia autêntica de seus jovens protagonistas, a história se ressente do fato de que, desta vez, o diretor-roteirista parece não ter a intimidade suficiente com o assunto de seu filme. Sendo assim, em alguns momentos fornece soluções um pouco previsíveis demais - como a analogia entre Lilya e Volodya com anjos, com direito a asinhas brancas e tudo. Faltou um pouco mais de sutileza aqui. Afinal, desde Asas do Desejo, de Wim Wenders não se vêem anjos verossímeis no cinema.
