26/08/2026
Drama

Nathalie X

post-ex_7
Celebrar as bodas de prata é justo e merecido. Afinal permanecer com o mesmo companheiro durante 25 anos não parece uma tarefa das mais simples. É crível que neste período apareceram rugas; que muitas brigas foram dribladas e injúrias perdoadas. É provável que o amor se manteve por meio da benevolência, do tempo e do companheirismo, mas também é de se esperar que a relação sexual tenha esfriado. Assim é a vida da personagem Catherine (Fanny Ardant), no novo filme de Anne Fontaine, Nathalie X. Casada há 25 anos com Bernard (Gerard Depardieu), ela cultiva o amor matrimonial sem, no entanto, deleitar-se em paixão.

Tudo caminha tranqüilo em sua vida: profissão, casamento e saúde. Catherine é uma médica ginecologista, com trabalho estável, bela e conservada para sua idade (cerca de 50 anos) e bem relacionada. Até que um dia ela escuta as mensagens da caixa postal do celular de seu marido Bernard, e descobre que ele a traiu, ou pior, pode estar tendo um caso extraconjugal.

É a partir desta descoberta que a diretora Anne Fontaine (Lavagem a Seco) conduz a trama de Nathalie X de um modo francês, ou seja, distante de qualquer clichê americano ou de uma conduta politicamente correta. Catherine contrata uma prostituta para seduzir Bernard e, assim, descobrir quais são as preferências sexuais do marido. Mais do que isso, por meio dessa relação promíscua, ela pretende entender quem é o companheiro com o qual está casada há tanto tempo, por que ele a trai e até que ponto mente. Um caminho que vai transportá-la a fortes e dolorosas emoções e a uma revisão interior.

Parece que seria mais fácil pedir o divórcio, ou contratar um matador de aluguel, como algumas fitas hollywoodianas. Mas é justamente essa escolha excêntrica que leva o espectador a um ambiente erótico, conturbado e indagador do mundo feminino. A traição deixa de ser mote e dá lugar a relação madame e prostituta.

Sob o pseudônimo de Nathalie (Emanuelle Béart, belíssima), a prostituta narra em detalhes para Catherine como foram as relações sexuais com Bernard. Desses diálogos nasce o clima altamente erótico do filme. Tudo através de palavras, sem que haja sequer uma cena explícita.

A atuação de Depardieu é propositalmente secundária. O que seu personagem pensa ou como se reporta não interfere no contexto da história. Até a mãe de Catherine (Judith Magre) tem seu papel mais esboçado e sua personalidade mais dissecada do que o marido adúltero. Trata-se de um filme sobre o universo feminino, lúbrico e emocional.

Ao entrar neste caminho lascivo, Catherine vai se redescobrir, para, talvez, voltar ao ponto de partida. Neste percurso, vai passar pelas dores humanas do envelhecimento, da infidelidade, da frustração sexual, da mentira e da cobiça. E vai ainda atrever-se a experiências inusitadas. Analisar as relações humanas no século XXI, dentro da instituição casamento, pode surpreender. A traição masculina ainda está colocada como ocasional. Mas também se especula o que esse comportamento acidental pode desmembrar.

A bem-cuidada trilha sonora composta por Michael Nyman alude à atmosfera noturna parisiense, de cafés, boates e hotéis. Mesclada com canções do canadense Leonard Cohen (músico que aprendeu suas primeiras notas após os 40 anos e que hoje tem quase 70 anos) e baladas pop de Natacha Atlas, que já se apresentou no Free Jazz Festival no Brasil, a parte musical do filme fica ainda melhor.
post