06/06/2026
Drama

Machuca

Representante chileno à indicação do Oscar de filme estrangeiro, este drama sóbrio e competente reconta o clima pré-golpe de 1973 pelo olhar de dois meninos.

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Não são poucos os chilenos pessimistas a acreditar que o seu cinema "no existe más allá de los Andes". Uma descrença generalizada, que sufoca uma série de diretores promissores no país e deprime distribuidores pelas parcas bilheterias. Distante de não valorizar sua própria cultura, os chilenos percebem sua cinematografia como "mais ou menos", tal como muitas vezes ocorreu no Brasil.

No entanto, nos últimos anos, alguns diretores conseguiram conquistar um relativo sucesso em seu país e ainda escalar a cordilheira com suas produções embaixo do braço. Comercialmente ou não, títulos como Coronación (2000), Sexo com Amor (2003), Febre de Loco (2001) ou mesmo, Taxi para Três (2001), conseguiram excepcional aceitação internacional, colocando o Chile no mapa, chegando ao ponto de se discutir "o novo cinema chileno".

Um dos responsáveis por esta conquista, sem dúvida, é Andrés Wood. O diretor de Febre de Loco e Historias de Fútbol (1997) liderou as bilheterias em seu país no ano passado. Mais do que isso, fez estardalhaço em festivais internacionais com uma história simples, mas emblemática, a respeito de um país que ainda sofre com as marcas de uma cisão social que permitiu uma duradoura e tenebrosa ditadura.

Machuca conta a história de Pedro Machuca (Ariel Mateluna), um garoto pobre que vive na periferia de Santiago e consegue ingressar gratuitamente em um dos mais prestigiosos colégios da época, onde deve enfrentar o preconceito dos ricos colegas de classe. Entre eles está Gonzalo Infante (Matías Quer), participante da elite escolar, mas que por motivos maiores acaba se tornando seu amigo. Tudo isso, durante o governo socialista de Salvador Allende, às vésperas do golpe militar organizado pelo general Augusto Pinochet.

O filme na verdade recria a própria vivência de Wood, durante a experiência de integração social promovida pelo Colégio Saint George, da qual o diretor foi participante, nos meses que antecederam o golpe militar. O fato do filme ser dedicado ao padre McEnroe é prova disso.

A subjetividade do olhar dos garotos sustenta o enfoque político da situação social do país, que Wood tem defendido ante as críticas que a produção gerou em alguns setores da sociedade chilena, conservadora e classista. Aqui, o peso de um cinema de qualidade fala mais alto: a sobriedade e coerência dos elementos históricos, a competência do diretor em extrair cenas entranhadas no imaginário coletivo e o excelente trabalho com os atores jovens tornam Machuca uma das maiores produções chilenas e uma interessante visão sobre a identidade cultural desse país.

Por estas razões, o filme foi selecionado para representar o Chile e concorrer à indicação ao Oscar, na categoria Melhor Filme Estrangeiro, algo inédito para um produção chilena. Vencedor ou não em Hollywood, Machuca já é um dos grandes vencedores de 2005. Não apenas acordou os chilenos de um transe anticultural, mas provou que o Chile, apesar das poucas produções, está no caminho de se tornar uma referência em cinema na América Latina, tal como Brasil, México e Argentina.

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