06/06/2026
Drama

Alexandre

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À certa altura do filme Alexandre, Felipe (Val Kilmer), pai do herói, diz ao filho que "não existe glória sem sofrimento", mas, após três horas do novo trabalho do diretor Oliver Stone é possível concluir que existe sofrimento sem qualquer glória - ou melhor, sem qualquer vantagem. O longa é um épico chato e quase infinito que só deve agradar aos fãs mais devotados do diretor - e mesmo eles devem estar preparados. É incrível que um filme consiga ter três horas e ser tão superficial.

Alexandre custou cerca de US$ 150 milhões, e cada centavo pode ser visto em cena. O longa tem o peso de um épico histórico, no pior sentido cinematográfico da palavra. Cenários grandiosos, com ornamentos rebuscados, exércitos gigantescos espalhados pela Europa e Ásia e, para piorar, diálogos rebuscados, declamados com pompa por um grupo de atores deslocados e mal dirigidos. Some-se a tudo isso a direção de um cineasta que desconhece as palavras sutileza e sugestão, e é dado a floreios visuais e técnicos que não ajudam em nada o desenrolar da trama.

O trabalho de contar essa história é dado a Ptolomeu (Anthony Hopkins). A primeira cena, aliás, é um monólogo cansativo, com o personagem discursando sobre como Alexandre era grande e o seu legado. Durante o filme, as intervenções desse narrador só servem para tornar mais confuso o roteiro, à medida que o personagem passa a citar cada vez mais datas e figuras históricas. É tentador levantar o braço e perguntar "Professor, mas tudo isso vai cair na prova?".

Seguindo a regra básica da cinebiografia quadrada, o roteiro conta desde a infância de Alexandre, no século 4 a.C - quando o garoto divide sua lealdade entre mãe possessiva Olímpia (Angelina Jolie) e o pai decadente e beberrão (Val Kilmer). Aos 20 anos, o jovem Alexandre (Colin Farrell) assume o trono (como e porquê será explicado só duas horas mais tarde), e lidera seu exército que conquista praticamente todo o mundo conhecido naquela época.

O seu império começou destruindo a Pérsia e chegando até a Índia. Foram oito anos de batalha, nos quais o conquistador espalhou a cultura grega por todos os lugares por onde passava. Nessa jornada, ele também se casou com uma princesa (Rosario Dawson) e teve vários amantes. Se Alexandre vivesse nos dias de hoje, aquele a quem ele iria apresentar como seu companheiro seria Heféstion (Jared Leto).

Aliás, a bissexualidade de Alexandre foi um dos temas nevrálgicos da produção. Muito se especulou como e o quanto Stone iria abordar o tema, chegando a levantar a ira de gregos a ponto de moverem processos contra o filme. Porém, o diretor faz uma abordagem insegura. Nunca entra no tema com seriedade e segurança. As cenas de teor homossexual do filme são tímidas e indecisas, algumas trocas de olhares e abraços carinhosos. Como num momento em que Alexandre seduz um escravo, ou tem uma troca de carinho com seu companheiro. É aí que o desconhecimento de sutilezas e a mão pesada de Stone mais atrapalham o filme.

Faltam a Farrell a energia, o brilho no olhar para conquistar os seus soldados e fazer com que eles entrem nas mais sangrentas batalhas. O ator evita transpor a sua imagem de bad boy para Alexandre, fazendo um personagem que é muitas vezes ingênuo (principalmente nos olhares) e dominado pela figura materna. Também, como não o ser quando se é filho de Angelina Jolie, uma das criaturas mais sensuais dos últimos tempos. No entanto, nem os belos lábios e o talento de Jolie a salvam das escolhas erradas que ela e o diretor fizeram para sua personagem. A pior delas é o sotaque. Uma hipótese é a atriz estar querendo imitar Penelope Cruz em O Capitão Corelli, já que neste filme a atriz espanhola fazia papel de grega.

A ressonância contemporânea do filme patina numa dicotomia da abordagem do personagem. Alexandre muitas vezes soa como um George W. Bush da antigüidade, tentando 'salvar' o mundo da barbárie. Mas o roteiro nunca se decide se está criticando-o ou fazendo uma apologia. Como tudo no filme, isso é tão confuso, que parece que Alexandre está mesmo falando grego.
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