04/06/2026
Drama

Closer - Perto Demais

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Uma das falas centrais da peça Closer, do britânico Patrick Marber, acabou ficando de fora da montagem final do filme homônimo (apesar de ter aparecido no trailer do filme). A frase é algo como "Porque você jurou amor eterno para mim quando tudo o que você queria era apenas sexo?". Nessas palavras está a espinha dorsal da história de dois casais em Londres, que encontram, desencontram, se unem e separam no período de alguns anos.

Mentira e manipulação substituem carinho e compreensão nos relacionamentos de Closer - Perto Demais. Os personagens chegam a jurar amor eterno, entre outras coisas, tudo em nome de saciar a atração física. Dan (Jude Law, que com seis filmes em menos de seis meses, aparentemente desconhece a palavra superexposição) é um jornalista, ou melhor, escreve obituários no jornal, que salva de um atropelamento a stripper americana Alice (Natalie Portman). Os dois começam a namorar no hospital, quando ela fuça na pasta dele e descobre algumas peculiaridades sobre o rapaz, como o fato de cortar a casca do pão-de-forma de seus sanduíches.

Meses depois, Dan posa para a fotógrafa Anna (Julia Roberts). Ele está lançando o seu primeiro livro, no qual, aliás, a personagem central tem tudo em comum com sua namorada Alice. Como num jogo de poder meio inconseqüente, um começa a seduzir o outro até que eles se beijam. Dan, mais ingênuo do que aparenta, acha que estão vivendo um caso amoroso, enquanto Anna fica perplexa. Afinal, foi apenas um beijo. Está formado o triângulo amoroso.

Se um triângulo amoroso já é complicado, um 'quadrângulo' estabelece tensão suficiente para fazer as pessoas perderem a sanidade. A quarta ponta, o médico Larry (Clive Owen), chega de forma estranha: seduzido por Dan, que pensava ser Anna, num bate-papo na internet.

Após apresentar os personagens e estabelecer os casais Dan/Alice e Larry/Anna, Marber começa uma espécie de dança das cadeiras amorosas, na qual um quer seduzir o outro e, ao mesmo tempo, manter a sua integridade e o relacionamento com seu parceiro original. Assim, é difícil dizer quem realmente está manipulando quem. Afinal, esse quarteto pouco mostra de si mesmo, apenas projeta o que espera fazer efeito no objeto do desejo.

Sutilmente, Closer - Perto Demais avança no tempo a cada cena, sem muito dizer para quando. A única sensação que se tem é de que o futuro sempre é o tempo presente. Explorando os personagens dessa forma, é como se Marber atestasse que o tempo muda as pessoas, e que pouco conhecemos aqueles que moram debaixo do nosso teto. Mais do que dizer que o tempo apaga tudo, o dramaturgo e roteirista mostra que a passagem dos meses transforma as pessoas e relações - e nem sempre para melhor.

Seguindo a melhor tradição de dramaturgos como o americano Harold Pinter e o britânico David Hare, Marber não desperdiça palavras nem personagens. Longe de teorizar, o autor inglês faz a sua versão da anatomia de dois romances fadados a finais infelizes. Os personagens se mostram mais interessados em discutir as suas relações - não necessariamente com o parceiro - do que viver os seus romances. Dessa forma, a verborragia da peça muitas vezes se torna útil na tela.

Depois de se consagrar novamente com Angels in America -produzido para o canal de TV HBO - , o veterano diretor Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem) volta a explorar no cinema dois casais e suas dores, como fez em um de seus melhores trabalhos Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (66), também baseado numa peça. Aliás, desde sua primeira montagem em 97, Closer muitas vezes foi comparada com Quem Tem Medo.... O filme de Nichols é um antídoto à maioria das produções americanas, quase sempre destinadas ao público adolescente. Closer - Perto Demais é um filme sobre e, acima de tudo, para adultos.

Nichols parece ter se valido de sua experiência como diretor teatral na hora de transpor Closer para as telas. Apesar de toda a verborragia (nem sempre desnecessária), o diretor encontrar o tom certo - principalmente com seus atores. Se Law e Julia têm os cachês maiores, são Natalie e Owen que roubam o show. Não foi à toa que ambos ganharam o Globo de Ouro e são favoritos ao Oscar. Owen, que fez Dan no teatro, injeta uma nova vitalidade ao filme quando entra em cena. Seu personagem, que a princípio é o mais apaixonado, acaba se tornando o mais cínico. Essa mudança de Dan, no teatro, para Larry, no cinema, acaba funcionando como se fosse a evolução de uma mesma pessoa que, com o passar do tempo, perdesse a inocência.

No cinema desde os 13 anos de idade, quando estreou em O Profissional (84), Natalie Portman faz deste filme uma espécie de entrada no mundo dos atores adultos com o batismo de fogo de interpretar uma stripper. Apesar de pouco mostrar de seu corpo, a jovem desnuda-se até a medula num personagem complexo, difícil, mas acima de tudo humano - o que fica evidente num striptease ao som da música dos Smiths, "How soon is now".

Talvez, ao invés de perguntar a Dan porque ele lhe jurou amor eterno quando o que queria era apenas sexo, Anna devesse se perguntar porque acreditou nas juras dele. E a resposta não seria muito simples. Talvez porque as pessoas estão desesperadas para ouvirem estas juras, mesmo sabendo que não são reais. Ou então porque em meio a um turbilhão de sentimentos contraditórios - como diz a bela canção "The Blower's Daughter", do irlandês Damien Rice, que abre e encerra o filme, "Eu disse que te desprezo?/Eu disse que te quero? - ouvir juras de amor ainda é necessário para sobreviver. Nesse ponto, Closer - Perto Demais chega bem perto de expor as dores dos relacionamentos contemporâneos.
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