03/06/2026
Drama

Em Busca da Terra do Nunca

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Quando se levanta a cortina que expõe o lado de dentro do processo criativo, o grande desafio está em tornar tão atraentes estes bastidores quanto a história mesma. Aí, as duas mágicas da narrativa se encontram, a do processo criativo e do seu resultado. É esta façanha que conseguiram o diretor Marc Forster (de A Última Ceia) e o roteirista David Magee, a partir de uma peça de teatro que procura revelar alguns dos segredos da invenção de Peter Pan, recriando a figura de seu criador, James Matthew Barrie (Johnny Depp).

O nome da peça é significativo: The Man Who Was Peter Pan, ou seja, "O Homem que Era Peter Pan", da autoria de Allan Knee. Porque o centro básico desta história é que o menino que não queria crescer e J.M. Barrie eram carne e osso - difícil, senão impossível, saber onde terminava a criatura e começava o criador.

O nascimento de Peter Pan, um dos personagens mais emblemáticos e populares de todos os tempos, em todo caso, revela-se tão fascinante quanto a história mesma, que completou 100 anos de existência em 2004. O escocês J.M. Barrie era um dramaturgo de certo conceito na Londres do início do século XX. Vivia um casamento frio, convencional e sem filhos com a bela Mary Ansell (Radha Mitchell) e sua última peça não havia sido exatamente um sucesso, para desespero de seu ambicioso empresário, Charles Frohman (Dustin Hoffman). Faltava uma centelha para incendiar a imaginação de Barrie.

O escritor saía todos os dias para passear com seu cachorro e ter idéias no parque de Kensington. É nestes gramados que tem o encontro fundamental para a gestação de Peter Pan: a família Llewelyn Davies. Trata-se de um clã ferido pela morte recente do pai. Entretanto, a viúva Sylvia (Kate Winslet) e seus quatro pequenos filhos têm tudo o que falta na vida espartana do escritor: calor, alegria, imaginação, disposição para acolher a aventura e o inesperado.

Barrie e a família são feitos um para o outro. E esta convivência que cresce dia a dia alimenta não só as páginas do que seria a fantástica história de Peter Pan mas também os conflitos familiares. A mulher de Barrie ressente-se de abandono. A avó dos meninos, Emma du Maurier (Julie Christie), logo enxerga o rumo que a maledicência irá tomar. Na verdade, na época, levantaram-se realmente suspeitas até de pedofilia por parte de Barrie, além da clara insinuação de um adultério.

Embora incorpore estas mesquinharias de uma realidade vitoriana, portanto, moralista, o filme explora bem mais a riqueza da imaginação e da relação humana especial que certamente existiu entre o escritor e esta família. Sem se pretender factual demais, o enredo tem a coragem de propor um mundo imaginário sólido e encantador. A direção de arte fez um trabalho que permite ao público sonhar acordado. A excelência do elenco, liderado por Johnny Depp e Kate Winslet, além das crianças (especialmente o pequeno Freddie Highmore, que interpreta Peter), faz o resto da mágica. As sete indicações ao Oscar 2005 - filme, ator (Depp), direção de arte, figurino, trilha sonora, roteiro adaptado e montagem - são apenas um reconhecimento do acerto de todas estas escolhas.

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