Aquele que foi um dos maiores craques do futebol-arte, o ídolo de pernas tortas que transformou em arma cada uma das aparentes desvantagens de um físico desproporcional, recebe na tela uma encarnação apagada, que nunca permite vislumbrar a luz e a sombra por trás deste personagem extraordinário, ícone da nação. A escolha do protagonista, André Gonçalves, parece errada desde o primeiro minuto. Franzino, o ator nunca evoca o corpulento atleta nascido em Pau Grande, bicampeão mundial em 1958 e 1962, tricampeão pelo Botafogo (time de cuja camisa vem o subtítulo do filme, lembrando o detalhe marcante do uniforme alvinegro). O fato de que, mesmo se passando num espaço de trinta anos, o ator não sofre transformações físicas evidentes contribui ainda mais para retirar-lhe veracidade.
Mais do que esse erro de casting e os vacilos da maquiagem, a escolha do diretor Milton Alencar por uma história que privilegia o fracasso do personagem, contando sua história em flashback, mostra-se equivocada. Começa no desfile de Carnaval de 1980, quando a Mangueira resolve homenagear o antigo ídolo do Botafogo, já muito doente, num carro alegórico que não podia ser mais triste no meio da euforia carnavalesca, devido à decadência do jogador.
A partir desse desfile, desenrola-se a história do menino que jogava futebol desde os 14 anos, foi levado para o Botafogo por um colega (Irati) e aí desenvolveu o melhor de sua carreira. No time carioca, Garrincha venceu os campeonatos de 1957, 1961 e 1962, marcou 242 gols em 613 jogos. Nesse período, também, revelou-se a arma decisiva para a conquista dos dois primeiros campeonatos mundiais brasileiros, na Suécia, em 1958, e no Chile, em 1962 - onde sua estrela brilhou praticamente sozinha, já que o jovem Pelé se machucou na segunda rodada, facilitando que Garrincha ganhasse o título de melhor jogador daquela Copa. As imagens do jogador real inseridas no filme dão uma pequena idéia das possibilidades daquelas pernas tortas, capazes de arrancadas desconcertantes e dribles imprevisíveis, desnorteando e não raro humilhando os adversários.
Tanto talento não conseguia superar o alcoolismo, que finalmente o destruiu. O filme também aborda a queda de Garrincha pelas mulheres, fator constante de desequilíbrio em sua vida. Teve oito filhas com a mulher oficial, outros dois com a amante e também um menino com uma ocasional namorada sueca, numa excursão do Botafogo. Com seu grande amor, a cantora Elza Soares (Taís Araújo), teve outro filho (ela perdeu outro, numa gravidez que não foi adiante). Aliás, num filme todo equivocado, um inesperado acerto é o casting de Taís Araújo, que transmite com sinceridade a energia da cantora que foi tão satanizada, na vida de Garrincha, como "destruidora de lares", em boa parte devido ao grande moralismo da época.
