Normal até demais era a vida do consultor tributário William Faber (Fabrice Luchini) até o dia em que entra pela porta de seu escritório uma bela mulher, Anna (Sandrine Bonnaire). Confundindo-o com o analista que atende no mesmo andar, a moça derrama-se em confissões bastante delicadas sobre sua vida e o casamento em perigo. Quando ela sai pela porta, prometendo voltar para a segunda sessão, William sabe tudo, menos como lidar com o delicioso equívoco.
A primeira expectativa que Anna desmonta é a lógica. E, para o contido William, esta que era a base de seu mundo de impostos e cifras começa a ruir. Começa um jogo entre ele e a misteriosa mulher que não se interrompe nem quando ele, a contragosto, confessa-lhe que não é terapeuta. Um jogo que tem a ver com falar e ouvir e que é poderosamente erótico, embora não se traduza em contato físico.
Há um discreto clima de mistério amarrando as cenas, com música de forte inspiração hitckcockiana, nada por acaso. Leconte pretende mesmo instalar uma atmosfera de filme noir, até com a sugestão de violência e crime que surge a partir da figura de um marido ameaçador (Gilbert Meki). Quando muito, Leconte se propõe a ser detetive da alma. E cria uma história de amor, contando com uma sintonia de atores que poucos como ele sabem obter. Fabrice Luchini supera sua habitual veia cômica nesta primeira vez em que trabalha com o diretor, mostrando nuances qualificadas no papel deste ouvinte inveterado. Sandrine Bonnaire, que já trabalhara com Leconte em Um Homem Meio Esquisito (Mr. Hire), assume uma têmpera refinada ao entrar na maturidade. Parece uma nova Deneuve em seu misto de sugestão e mistério, entrega e reserva, sensualidade e fúria.
