Não há só conflito de gerações entre a avó, Eka (Esther Gorintin), sua filha Marina (Nino Khomassouridze) e a neta Ada (Dinara Droukarova). Elas são diferentes entre si, embora complementares. Se se procurasse defini-las num adjetivo, seriam Eka, a determinada; Marina, a impaciente; Ada, a insatisfeita. No trio, há também divergências políticas, especialmente entre mãe e filha. Habitantes de Tbilisi, capital da antiga república soviética da Geórgia, elas têm visões diferentes sobre o comunismo que caiu e o capitalismo que o sucedeu. Eka reclama o tempo todo dos atrasos do correio e dos transportes, bem como do desemprego local, que levou seu único filho homem, Otar, a emigrar para a França. Viúva de um comunista dedicado, ela não acredita nem mesmo que Stálin tenha promovido qualquer massacre, como insiste a filha, Marina. Ada é indiferente à política, o que não deixa de ser uma posição.
O funcionamento precário do país nos novos tempos tem para Eka um significado mais emocional do que político. O mau funcionamento de telefones e correios dificulta o contato com o filho, que vive em Paris, ele mesmo sob condições de trabalho muito precárias. Tão precárias que um dia ele simplesmente pára de telefonar e escrever.
Descobrir a verdade sobre o silêncio de Otar torna-se uma obsessão para a obstinada velhinha. Tanto quanto para Marina e Ada torna-se ponto de honra esconder dela o destino de Otar, porque acreditam que não agüentaria a verdade. A filha e a neta constróem, então, uma mentira que lembra muito o esquema montado pelo filho em Adeus Lênin. Mesmo que o espectador saiba tudo, torna-se fascinante acompanhar o empenho das duas em constituir um mundo ideal para Eka, só equivalente ao esforço da avó para reatar o contato com o filho. Além da boa solução final, um ponto alto está na atriz Esther Gorintin, que estreou na profissão em 1999, quando tinha 85 anos, no filme Viagens, de Emmanuel Finkiel. Aos 90 anos, a energia de seu olhar e a sutileza de sua interpretação tornam-se o verdadeiro coração do filme e um retrato da velhice com toda a dignidade, lucidez e independência que pode ter.
Descoberto no Festival de Cannes 2004, o filme venceu o Grande Prêmio da Semana da Crítica e, depois, o César de melhor primeiro filme de ficção. A estréia da diretora e roteirista Julie Bertucelli – que foi assistente de Krzysztof Kieslowski em A Liberdade é Azul e A Igualdade é Branca - revela-se promissora.
