19/07/2026
Drama

Irmãos

Quando Thomas (Bruno Todeschini) descobre que tem uma rara doença, ele procura a ajuda de seu irmão mais novo, Luc (Eric Caravaca). O relacionamento dos dois, que anda desgastado, toma novo fôlego, embora as circunstâncias sejam adversas.

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Indo na contramão da obviedade, o cineasta francês Patrice Chéreau (A Rainha Margot) fez um filme no qual a doença não é razão nem metáfora da redenção. Pelo contrário, em seu Irmãos não há espaço para que seus personagens encontrem uma redenção. A dor, a morte, a experiência estão todas lá, subtraindo a cada dia a energia e vitalidade das pessoas –e, ao mesmo tempo, reunindo dois irmãos.

Fosse produzido por um estúdio de Hollywood ou um canal de TV a cabo (que o transformaria no filme-de-doença-da-semana), Irmãos não seria tão desagradável de se ver. Desagradável, sim; pois esse é o objetivo do cineasta e roteirista. Um corpo é consumido por uma doença mas a identidade do doente, sua alma, sua personalidade resistem?

Thomas (Bruno Todeschini) está morrendo aos poucos de uma doença rara e misteriosa, que destrói as plaquetas de seu sangue. Seu irmão mais novo Luc (Eric Caravaca) é quem cuida dele quando todos o abandonam. A ironia poderia surgir quando o roteiro revela que Luc é gay, e Thomas heterossexual – contrapondo os estereótipos que permeiam esse tipo de personagens, nesse tipo de filme. No entanto, Chéreau não quer revelar as ironias do destino.

Como em seu filme anterior Intimidade (01), o cineasta se mostra interessado em filmar corpos – às vezes em detrimento da personalidade de seus personagens. Quando Thomas é preparado para uma cirurgia – numa seqüência que emocionalmente dura muito mais do que o temporalmente – ele deixou de existir como personalidade. É apenas um corpo, por mais que as enfermeiras se mostrem cuidadosas. É um momento doloroso de se ver.

Mais uma vez, Chéreau coloca diante de sua câmera uma história de um relacionamento baseado na troca de poucas palavras, daqueles em que o toque, o contato físico, suprime o diálogo entre os irmãos. Dessa forma, os corpos e a forma como eles são fotografados ganham uma importância maior em Irmãos. A fotografia de Eric Gautier (Diários de Motocicleta) não usa artifícios, nem busca a beleza mascarada. Ao mesmo tempo, traz uma estranha sensação de proximidade, intimidade.

Chéreau, que baseou o roteiro (escrito com a colaboração de Anne-Louise Trividic) no romance homônimo do também ator Philippe Besson (do recém-premiado em Cannes Caché), não implora por simpatia aos seus personagens. Pelo contrário, o distanciamento entre eles e platéia aumenta a cada cena. É como se os sentimentos confusos deles não nos dissessem respeito. Mas ao mesmo tempo somos testemunhas de uma história de degradação e perda.

Como diz a canção “Sleep”, de Marianne Faithfull, que toca em dois momentos, das cinzas às cinzas, do pó ao pó. Mas antes que alguém possa chegar ao estado primitivo da matéria, Chéreau mostra que há um intenso e, às vezes, doloroso caminho a se percorrer. O filme rendeu ao cineasta o prêmio de direção no Festival de Berlim de 2003.

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