Giovanna (Giovanna Mezzogiorno) é casada há alguns anos e leva uma vida bem diferente daquela que sonhou. Trabalhando na contabilidade de uma indústria, abriu mão de ser uma grande confeiteira. Sua vida amorosa também está bem abaixo das expectativas, com o marido que trabalha à noite e os dois pouco se vendo. Uma das distrações da moça é espionar o vizinho solteirão que mora no prédio em frente. Mas, diferente da personagem de O Outro Lado da Rua, a italiana não usa aparatos como binóculos. Esse lado voyeur acontece meio por acaso, quando calha de ela estar na cozinha e ver que há alguma atividade no outro apartamento.
Um senhor idoso e desmemoriado mudará a vida de Giovanna e do marido Filippo (Filippo Nigro). O homem diz se chamar Simone (Massimo Girotti), e Filippo acaba levando-o para casa – mesmo contra a vontade da mulher. A aversão dela irá se transformar numa amizade, aproximando-a do vizinho Lorenzo (Raoul Bova). O roteiro do diretor Ferzan Ozpetek e Gianni Romoli (ambos de Um Amor Quase Perfeito) privilegia o drama de Giovanna e suas insatisfações, sem abrir mão da história de Simone, que vai e volta no tempo. Apesar disso ser um ponto bem resolvido na trama, o mesmo nem sempre acontece na direção, que muitas vezes coloca as duas épocas diferentes na mesma cena. Não chega a ser confuso, mas parece ser uma saída pouco criativa e preguiçosa demais para explicar os arcos temporais que os personagens precisam. Além de alguns momentos desnecessários – como o longo close final que serve de fundo para os créditos – que não têm razão dramática, nem muita beleza estética.
Giovanna e Bova estão apenas corretos em seus personagens – ela mais do que ele. Quem se sobressai é Nigro com um personagem bem mais complexo do que o vizinho solteirão, e com mais talento do que o outro ator. Girotti também tem bons momentos com um personagem às vezes esquemático.
A Janela da Frente ganhou cinco prêmios David Di Donatello em 2003, entre eles melhor filme. Isso só prova que a produção é correta demais – o que muitas vezes resulta em um trabalho frio e feito para ganhar prêmios. O que foi algo bem injusto, pois no mesmo ano concorriam ao prêmio A Hora da Religião, de Marco Bellocchio e Respiro, de Emanuele Crialese, ambos bem superiores ao drama de Ozpetek.
