07/06/2026
Drama

Pornografia

Na Polônia ocupada pelos nazistas, em 1943, um músico e um escritor partem para a propriedade rural de um amigo. Num ambiente aparentemente livre da guerra, mas cercado por ela por todos os lados, um dos recém-chegados entretém-se num jogo, tentando empurrar para os braços um do outro a jovem Henia, noiva de um advogado, e um empregado da família, Karol. Segredos do passado, traições e escolhas duras estão no caminho dos personagens.

post-ex_7
O nome provocador é a primeira pista de que a história não seguirá um rumo óbvio, sugerindo associações bem maiores do que o sexo. A sexualidade também constitui um dos fios condutores desta estranha experiência, envolvendo um grupo de pessoas numa bucólica fazenda, na Polônia ocupada pelos nazistas, em 1943.

Nesta época em que não sobrou nada a fazer para os artistas locais, eles passam o tempo num desespero indolente, num hotel. Ali, conhecem-se o músico Fryderyk (Krzysztof Majchrzak) e o escritor Witold Gombrowicz (Adam Ferency) – este último, um personagem autobiográfico, a partir do autor do livro em que se baseou o roteiro, homônimo ao do filme. Um dia decidem partir para a propriedade rural de um amigo do escritor, Hipolit (Krzysztof Globisz). Nesse mundo protegido, onde não faltam conforto e comida apesar da guerra, atrai a atenção de Fryderyk a beleza juvenil de Henia (Sandra Samos), a filha do dono da casa. Não se trata de uma cobiça para si. Fryderyk vê “juventude demais” em Henia e também em Karol (Kazimierz Mazur), filho de um empregado da casa. Entre os dois jovens que cresceram juntos, no entanto, parece não haver mais do que uma plácida amizade, mantida ainda mais reservada pelo noivado de Henia com um advogado bom partido, Waclaw (Grzegorz Damiecki). Entretanto, o músico decide jogar Henia e Karol nos braços um do outro, fazendo uma aposta com Witold.

Há um clima de Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, nesta aposta e muito mais camadas sob esta aparência. O jogo de alcovitice distrai os cínicos Fryderyk e Witold da exasperante sensação de claustrofobia. Naquele mundo microcósmico, em que a dona da casa (Grazyna Blecka-Polska) morre de tédio, afundando-se na bebida, respira-se um clima de decadência burguesa, de iminência de queda, tal como num conto de Tchecov. A ótima escolha da fotografia, recaindo em tons esmaecidos, esverdeados (que remetem, por exemplo, a Pântano, de Lucrecia Martel), o refinado trabalho de câmera, reforçam a sensação de sufocamento.

A morte, contraponto de Eros, a todo momento se apresenta no horizonte, traduzida nos inserts precisos da brutalidade das chacinas ao redor da propriedade, até entrar pela porta adentro, com um assassinato e um justiçamento. As pessoas neste mundo estão estranhamente aprisionadas, como em areia movediça, a um tempo em que não foi permitido ter ilusões. É um filme tão denso e tão bom que dá vontade de procurar o livro que o originou.

post