Nas telas, Uma Garota Encantada parece um amontoado de referências cinematográficas recentes – para poder comunicar melhor com seu público-alvo, meninas na faixa dos 10-14 anos. A referência mais distante ao universo dessas garotas certamente é A Princesa Prometida (87). No entanto, os momentos à la Shrek, Para Sempre Cinderela e Coração de Cavaleiro fazem a alegria da garotada.
Em muitos momentos, Uma Garota Encantada é uma versão em carne-e-osso de Shrek, com direito a ogros, seres gigantescos e bizarros e uma princesa corajosa. De Coração de Cavaleiro, pega-se a idéia de uma aventura medieval, desta vez, protagonizada por uma garota, vivida por Anne Hathaway, que a essa altura já é uma veterana em interpretar personagens do povo que se transformam em nobres, após ter feito os dois Diário da Princesa.
Quando bebê, Ella recebeu de sua fada madrinha o dom – ou seria a maldição ? – da obediência. Ela é obrigada a aceitar e realizar todas as ordens que recebe. Se alguém pedir para a garota fazer algo, ela pode recusar, mas se for mandada, não tem escapatória. Após a morte de sua mãe, seu pai se casa novamente e a madrasta má tem duas filhas igualmente mesquinhas.
Uma das novas irmãs descobre o encanto de Ella e começa a usar a menina em seu proveito, para conquistar o príncipe playboy Char (Hugh Dancy). Mas ele acaba se apaixonando por Ella, que é uma das poucas garotas que não desmaiam ao vê-lo. Na verdade, ela abomina a nova política do rei. Muito segregacionista, ele condena todas as criaturas que não são humanas a um ostracismo, proibindo, por exemplo, que elfos não tenham outro emprego a não ser divertir os humanos. Um amigo elfo de Ella sonha em ser advogado, mas não pode.
Por mais que Uma Garota Encantada seja um filme destinado a um público juvenil, não se pode negar que o diretor Tommy O'Haver não menospreza a inteligência de seu público. O filme até mesmo incentiva que as pessoas tomem uma posição política. Ella é totalmente pró-ogro, como ela mesma diz, chegando a carregar cartazes protestando contra o ogricídio. É difícil imaginar o filme sem a presença iluminada de Anne Hathaway. Com beleza e talento, ela encontra um meio-termo entre a seriedade e auto-ironia – afinal, não dá para levar a sério uma personagem que obedece a todas as ordens que recebe.
Com um trilha sonora retrô com clássicos dos anos 70, Uma Garota Encantada transforma a Idade Média num mundo pop, com direito a shopping centers e escadas rolantes, além de butiques caríssimas. Misturando imagens criadas por computador e uma direção de arte caprichada, o longa se torna um passatempo de bom gosto. O fato de saber como tudo isso vai acabar não atrapalha em nada.
