04/06/2026
Desenho animado

As Meninas Superpoderosas - O Filme

post-ex_7
Depois de quatro anos fazendo sucesso na TV a cabo, finalmente As Meninas Superpoderosas ganham uma versão para a telona. Florzinha, Lindinha e Docinho, as três irmãs criadas por um gênio da engenharia genética perfeccionista, chegam às telas contando como se tornaram as heroínas de Townsville - fato negligenciado em toda a série.

A mais assistida atração do canal Cartoon Network, com um total de US$ 350 milhões de faturamento em licenciamento, não segue uma linha contrária à nova onda de produções adultas, como South Park e O Rei do Pedaço. Todas possuem a mesma preocupação em abocanhar diferentes faixas etárias, principalmente o público universitário, e usar paródias como alívio cômico da trama.

Em As Meninas, por exemplo, não é difícil encontrar referências aos desenhos japoneses (Hello Kitty, Sailor Moon), Supermouse e até King Kong. O próprio gabinete do prefeito de Townsville é uma adaptação infantil do escritório do Comissário Gordon, da telessérie Batman dos anos 60.

O que diferencia As Meninas é a mistura de delicadeza, responsabilidade e emoção na hora de salvar o mundo "antes da hora de dormir", como enfatiza a publicidade do desenho. Criadas por Craig MacCraken, do impagável O Laboratório de Dexter, As Meninas Superpoderosas combinam força bruta e fofura. Lutar contra o crime é, na visão das garotas, a mesma coisa que brincar com suas Barbies.

A noção de responsabilidade do filme, porém, deixa um pouco a desejar. Na história, as meninas são criadas a partir da percepção do Professor, o cientista, de que o mundo é um caos. O crime impera e as pessoas têm medo de sair de casa. Ou seja, as protagonistas refletem o que existe de mais puro em um mundo dominado pela violência.

No entanto, quando surge o primeiro problema, elas não hesitam em usar seus poderes e promover um festival de pancadaria. Nesse sentido, a solução contra o crime está na retaliação, tal como acreditavam os brutamontes musculosos que sempre dominaram o reino dos super-heróis. Como estão no jardim de infância, esse detalhe passa muitas vezes despercebido em As Meninas Superpoderosas.

E é essa convivência natural das crianças com a violência que começa a preocupar até a Organização das Nações Unidas. Em estudo recente, a organização internacional concluiu uma análise de todos os desenhos animados em seis emissoras de TV aberta brasileira. As 71 horas analisadas indicaram que, em média, a cada 60 minutos, aparecem 20 crimes, a maioria lesão corporal e homicídio. No gracioso longa, a história não é muito diferente.

É certo que o desenho não é apenas para crianças, mas elas também fazem parte do público e não existe qualquer preocupação com o tema. Florzinha, Lindinha e Docinho convivem amigavelmente com a violência e é um equívoco evitar essa discussão. Mas ela não é feita em nenhum momento e, pior, o filme se apresenta como exceção à regra.

Cineweb-12/7/2002

post