Esse é o caso de David Hurst (Campbell Scott), o personagem central deste filme, um dentista casado com uma colega de trabalho, com quem teve três lindas filhas. A situação deles também é extremamente cômoda, já que vivem numa ampla casa, possuem um consultório próprio e parecem viver felizes numa daquelas cidades americanas em que não parece haver qualquer tipo de problema.
O que incomoda David, no entanto, é a deterioração de sua relação com a esposa, quando se aproxima uma crise matrimonial. Mesmo assim, com muita dissimulação, acaba apegando-se à idéia de que, como lutou tanto para chegar à posição que possui (oito anos na universidade, empréstimos bancários), o melhor é não fazer alarde e manter tudo como está. Ou seja, comodismo e inércia são as bases deste suposto sólido casamento.
O espectador passa a conhecer sua história por meio de seus pensamentos (em off) que pontuam suas opiniões sobre a profissão e a semelhança da arcada dentária com casamentos. Tudo beirando o humor melodramático. Mesmo os flashbacks de sua vida estudantil e sua juventude ao lado de sua futura mulher mostram um sujeito sereno, que nada faz além do essencial.
Tudo isso, claro, até ver sua mulher (em uma cena muito ambígua) entre beijos e abraços com outro homem. Este é o estopim para a lenta transformação do personagem, que passa a ter alucinações sobre traições de sua esposa. Para apimentar ainda mais seus delírios, coloca-se na história uma espécie de alter ego do dentista (um tal de Slater, interpretado pelo ator Denis Leary), um paciente bem macho, mal-educado e intrometido, que passa a fazer parte das fantasias de David.
Será este novo personagem que reprovará as fraquezas de David, dando conselhos bastante ousados (como "mate sua mulher") e aplaudindo as grosserias que ele diz a suas filhas e mulher. Uma esquizofrenia light muito usada em outros filmes, incluindo-se aí seriados de TV. Ou seja, tudo muito comum, como o casamento de David. O que dá a impressão que o personagem de Slater é trazido à tona com a única obrigação de trazer um pouco de interesse a um argumento pouco convincente.
No aspecto técnico, o filme também deixa a desejar. As imagens digressivas dos flashbacks, por exemplo, na contramão do naturalismo base do filme, se nutrem de uma textura áspera, uma iluminação descuidada. O fato, somado ao pouco entusiasmo da história, cria certa antipatia prévia ao filme.
No entanto, seria impensável não constatar um dos maiores ganhos do filme: as filhas dos protagonistas. Em vez de serem lindas, doces e “travessas-mas-adoráveis”, as três são insuportáveis. Choram, gritam, brigam, batem e até vomitam durante todo o filme. Eles roubam as cenas, sem qualquer dúvida.
Outro ponto positivo é a seqüência final. A família consumida por uma febre coletiva: todos enfermos, suados, sofrendo alucinações. A produção, formalmente, estimula a doença por meio de uma iluminação brilhante, com planos torcidos e um show musical à parte, protagonizado pelas personagens que se manifestam apenas para David, confirmando o pesadelo alucinante. Tudo temperado com muito humor negro e escatologia.
