Naquela altura, os países ocidentais apressaram-se em retirar seus cidadãos brancos do país em guerra civil, deixando para trás algumas esparsas tropas da ONU que muito pouco podiam fazer. Dentro do caos sangrento que manchou a nação africana, um obscuro gerente de hotel, Paul Rusesabagina (Don Cheadle), transformou seu estabelecimento em campo de refugiados, conseguindo salvar a vida de mais de 1.200 pessoas.
A história de Paul atraiu a atenção de Terry George, diretor e roteirista irlandês acostumado a associar seu nome a empreitadas políticas – como Mães em Luta, seu filme de estréia como diretor, e Em Nome do Pai, de Jim Sheridan, onde obteve uma indicação ao Oscar pelo roteiro. Ele dedicou três anos de sua vida para tornar filme a história deste africano comum e apolítico, transformado em herói por circunstâncias absolutamente extraordinárias.
Rusesabagina teve até motivos pessoais para empenhar-se na proteção aos tutsis. Afinal, mesmo sendo um hutu, é casado com uma tutsi, Tatiana (Sophie Okonedo), e pai de três filhos com ela. Valeu-lhe também sua habilidade como negociador, capaz de obter com lábia ou suborno as mercadorias necessárias ao funcionamento do hotel, depois, a própria garantia de que ele não seria invadido por tropas tão ávidas de sangue quanto de dinheiro.
Em nenhum momento o filme mostra diretamente os massacres, motivo pelo qual o diretor Terry George chegou a ser criticado. Ele se defendeu, dizendo que não pretendia que a censura ao filme fosse muito elevada, para que os mais jovens também pudessem vê-lo. Independente dessa escolha, o cineasta cria cenas do mais puro horror – como num momento em que a van onde está o gerente passa por uma estrada coalhada de corpos.
Mesmo que Rusesabagina esteja no centro da narrativa, o filme dá conta de passar a História mais ampla do país, com H maiúsculo. O pano de fundo deste relato não é outro que não o de um país tido como periférico na ordem mundial, abandonado à própria sorte depois que os colonizadores partiram. A vida de um milhão de pessoas pareceu não indignar os altos órgãos mundiais porque se tratava de africanos, não de europeus. No século XXI, em que se alega ter superado tantos anacronismos, persiste firme o abominável conceito de cidadão de segunda classe.
