Quando Graham Greene foi convidado pelo diretor Carol Reed para escrever um roteiro original, o escritor britânico contou na introdução de O Terceiro Homem que precisou primeiro escrever um conto com pouco mais de 100 páginas, antes de partir para o roteiro. Como ele diz, num roteiro é mais difícil desenvolver os personagens, criar a atmosfera, a ambientação e o desencadeamento dos fatos – por isso, com uma obra literária já pronta o roteiro fica mais convincente. E ele era Graham Greene, um dos melhores escritores ingleses. O resultado da parceria rendeu O Terceiro Homem, considerado por especialistas como o melhor filme britânico de todos os tempos.
O roteirista John Duigan (Sereias) não é Greene, e seu Três Vidas... não tem fôlego para se sustentar nem como entretenimento. De todas as falhas do filme – que não são poucas – a maior é o roteiro bobo, com personagens monocromáticos, em situações (tele)novelescas em cenários exóticos e sensuais. O pior personagem do filme é, justamente, o principal, que deveria segurar toda a estrutura, a socialite Gilda Besse, interpretada por uma Charlize Theron.
Em qualquer outro filme, o personagem de Gilda já seria forçado. Uma mulher espirituosa de 20 e poucos anos, rica e destemida que não se importa em viver quantos amores puder com quem quiser. Mas a II Guerra cruza o seu caminho, na época em que vivia na França, e isso vai mudar o seu destino. Não é por acaso que Gilda é um clichê de saias. A começar pelo nome, afinal, supostamente ‘nunca houve mulher como Gilda’ – mas aquela era Rita Hayworth.
No entanto, antes da guerra, Gilda vive um tórrido triângulo amoroso, com o escritor Guy (Stuart Twonsend) e a enfermeira espanhola Mia (Penélope Cruz). Na época, a socialite trabalha como fotógrafa. No entanto, quando a Guerra Civil espanhola estoura, os dois a abandonam para lutar no conflito, e Gilda não perdoa nunca essa traição.
Duigan gosta de usar todos os clichês hollywoodianos de amor em tempos de guerra ao longo do filme, até chegar o seu clímax anticlimático. Embora o filme se ache ousado, o mais longe que consegue é colocar as duas atrizes dançando um tango ou mostrar Penélope seminua, vítima de violência causada por um francês sádico. Cenas depois, Gilda vingará a amiga, num dos momentos mais constrangedores do filme.
Hollywood vem explorando a II Guerra por mais de 60 anos. Nos últimos tempos, o conflito tem se tornado desculpa, muitas vezes cheia de glamour, para romances insossos, esquecendo a verdadeira dimensão do conflito.
