Com roteiro de Jeffrey Caine (007 contra Goldeneye), baseado no romance homônimo de John Le Carré, O Jardineiro Fiel traz Ralph Fiennes no papel principal, como um funcionário do governo britânico transferido para o Quênia com sua mulher Tessa. Ela, que sempre teve uma consciência política muito aguçada, acaba se envolvendo com trabalhos sociais que a levam a uma investigação sobre a presença de indústrias farmacêuticas no Quênia.
Suas investigações terminaram num relatório que assinou sua sentença de morte. Num dos primeiros momentos do filme, Tessa é encontrada morta supostamente assassinada por Bluhm, que fugiu. No entanto, Quayle não acredita nessa versão, e depois de encontrar alguns papéis entre as coisas de sua mulher começa a sua própria investigação, que irá esbarrar em algo tão grande e perigoso como a de Tessa.
Para transformar o suspense do mestre Le Carré, Meirelles e Caine optaram por uma caminho diferente do romancista, mas chegando ao mesmo destino. Com sua palavras, o escritor mostra as empresas farmacêuticas que usam pessoas como cobaias e o descaso de governos ocidentais e africanos que apóiam ou fazem vista grossa. Tudo isso explorado com uma riqueza de detalhes e subtextos típicos de seus romances. Já o filme impregna uma urgência contemporânea e de caráter sócio-político que foge dos suspense tradicional. Além da carga de tensão intrínseca da história, há o elemento político e real – o que torna a experiência de O Jardineiro Fiel ainda mais alarmante.
Diferente de outros que caem no vazio, como A Intérprete, este filme tem algo importante a dizer sobre política global. Mas nas mãos de um diretor menos talentoso (Mike Newell quase fez esse filme, mas optou por Harry Potter e o cálice de fogo) seria mais um thriller banal. Meirelles com sua sutileza e inteligência, nunca cai no panfletário, mas apenas levanta questões que acabam incomodando e fazendo pensar qualquer pessoa que tenha o mínimo de bom senso. Ele caminha para rumo a se tornar o cineasta fiel – aquele em quem sempre poderemos confiar, com projetos ousados e importantes, tanto no âmbito cinematográfico quanto no social.
Ajuda muito a direção o fato de todo o elenco estar em sintonia e, em alguns casos, no melhor trabalho de suas carreiras. Ao longo dos últimos anos, Fiennes se mostra um dos melhores atores saídos da Inglaterra. Seu Justin Quayle é um personagem que implode a partir de uma notícia bombástica (a morte de sua mulher, em circunstâncias suspeitas). O interprete opta pela discrição. Muitas vezes é quase como se ele não estivesse em cena. O viúvo não sai em busca de uma vingança, mas atrás daquilo que acredita ser a verdade – embora não a conheça. Já Rachel, por sua vez, parece ter saído das páginas do livro direto para tela. A conexão entre atriz e personagem se torna tão evidente que em momentos que ela socializa na rua com crianças africanas é difícil dizer onde acaba o papel e onde começa Rachel Weisz.
Meirelles conta com a mesma fotografia arrebatadora do uruguaio César Charlone (colaborador de Cidade de Deus) para dar a urgência da história. Aparentemente, não há nada que esse fotógrafo não seja capaz de fazer com uma câmera, um rolo de filme, algumas lentes e alguns filtros. Imagens que seriam meros cartões postais de paisagens africanas, traduzem solidão e redenção. Ao mesmo tempo, um registro que beira o documental mostra as mazelas de uma cidade que parece ter sido esquecida por Deus. Notável que as imagens de Charlone se mostram muito mais à vontade em meio à luz tropical e à miséria das favelas africanas do que numa Inglaterra gélida e burocrática.
O fim da Guerra Fria representou uma escassez de temas para Le Carré, que baseava seus suspenses na especulação em cima da espionagem entre o mundo capitalista e o socialista. O escritor teve que ir mais a fundo em busca de novos assuntos para os seus livros. O Jardineiro Fiel foi um dos mais elogiados e mais assustadores ao abordar um tema mais complexo. Todas as nuances do livro encontraram sua tradução mais perfeita para o cinema pelas mãos de Meirelles.
