O roteiro é assinado pela diretora, pelas quatro comediantes de O Grelo Falante (Carmen Frenzel, Claudia Ventura, Lucília de Assis e Suzana Abranches), com a colaboração de Evandro Mesquita – que faz o papel masculino mais importante do longa. A história não é situada em nenhuma cidade definida e parece se passar num universo paralelo entre Rio e São Paulo – numa mistura de táxis e ônibus das duas cidades, símbolo do Corinthians na sala, prancha de surfe no quarto, aparentemente numa tentativa de agradar a cariocas e paulistas.
Supostamente Coisa de Mulher quer falar sobre a vida e os problemas das mulheres contemporâneas. A cabeleireira Mayara (Adriane Galisteu) está fazendo tratamento para engravidar, mas o marido obstetra (Daniel Boaventura) sempre está ocupado demais com outras grávidas para ter tempo para ela. Dora (Carmen) está se separando do marido, vive às custas da pensão e quer ter um caso com seu advogado (Juan Alba).
Graça (Cláudia) é uma mineira que abandona o noivo no altar, instala-se na casa da prima Dora e arruma um emprego numa sex shop. Catarina (Lucília) é uma mulher casada, cujo relacionamento com o marido (Cacá Amaral) esfriou há muito tempo e só ela não percebe. Por fim, há Mônica (Suzana), que sonha em se casar virgem embora ache que já passou da hora de encontrar seu príncipe encantado.
Quem vai mexer com essas cinco mulheres é o jornalista Murilo (Mesquita). Um mulherengo inveterado, ele percebe que a convivência com essas mulheres pode lhe dar idéias para escrever uma coluna para uma revista feminina – que assina com o pseudônimo Cassandra. Depois que começa a gravar as conversas com suas amigas, a coluna se torna um sucesso.
O que se vê na tela acaba sendo pior do que o esperado – embora as expectativas gerais fossem bem baixas. Coisa de Mulher é um filme que tomou de Cinderela Baiana (aquele filme estrelado por Carla Perez sobre a vida da dançarina do É o Tchan!) o posto de uma das piores – senão a pior – produção brasileira pós-Retomada. Tenta ser algo irreverente, uma crítica bem humorada à sociedade machista. No entanto, o longa está repleto de um pseudofeminismo, misturado a filosofia de salão de beleza e carregado na vulgaridade.
O roteiro (publicado em formato de livro pela editora Imago) chega ao fundo do poço, fazendo com que diálogos vulgares de filmes como Avassaladoras pareçam espirituosos e até inteligentes em comparação. Mas o maior crime de Coisa de Mulher é o seu sexismo – que já começa no título preconceituoso. Afinal, depreende-se pelo filme que coisa de mulher é salão de beleza, pensão do ex-marido, gravidez e futilidade.
Catarina, por exemplo, vive as fantasias sexuais mais estapafúrdias para reacender a chama no seu homem. No entanto, ela sente prazer mesmo quando está esfregando o chão da sala de Murilo – num dos momentos mais constrangedores do filme, quando seu marido pensa que ela está fazendo sexo oral com o jornalista.
A cabeleireira Mayra, por sua vez, não é divertidamente imoral, ela é na verdade amoral e inescrupulosa. A solução final encontrada para o personagem que parece não ter coração, nem honestidade nada mais é do que outra opção machista do filme. É como se infidelidade fosse mesmo coisa de mulher.
A única ‘mulher’ que se faz ouvir e tem personalidade no filme é Cassandra – que não passa de um homem travestido. Com esse estratagema, os roteiristas só reiteram um conceito machista de que mulher não deve ser ouvida, ou não tem nada a dizer.
A direção é praticamente inexistente. Não existem movimentos de câmera ou enquadramentos. O ‘plano’ hall do prédio (onde todos os personagens moram) é usado à exaustão – dando a impressão de que a câmera de segurança da portaria teria umas saídas visuais mais interessantes e criativas do que a diretora Eliana.
A essa altura dizer que o desempenho de Adriane como atriz é risível não conta mais. Afinal, todo o elenco – incluindo uma participação da apresentadora Hebe Camargo como ela mesma – é tão ruim que a ex-modelo não chega a destoar do conjunto. O mais triste é com as comediantes d’O Grelo Falante, que, outrora talentosas, agora esbanjam falta de timing em meio a diálogos sem graça e de baixo nível.
Coisa de Mulher é uma daquelas produções que estabelecem um novo parâmetro, só que negativo. Quem achou Eliana em o Segredo dos Golfinhos mal dirigido, ou Sexo, Amor e Traição vulgar ainda não viu nada
