Um exemplo oportuno para essa discussão é o Da Cama para a Fama, a estréia do cineasta Pablo Berger. Lançado em 2003, o filme divide opiniões por onde é exibido, ainda mais se o espectador desavisado prestar atenção nas informações dos pôsteres, que dizem que a produção é uma “delirante e ácida comédia”. Um equívoco, do ponto de vista dramático e narrativo.
O fato é que este filme parece fadado a não encontrar seu público. Não diz a que veio. Não se trata de uma produção de humor fácil – apesar dos bons momentos de comédia –, tal como não se mantém como um sensível relato íntimo de amor entre pessoas comuns. Vai à deriva como uma tragicomédia com doses de sexo amateur e Ingmar Bergman.
A história conta o dia-a-dia de um casal de classe média espanhol, sem dinheiro e com dois problemas crônicos no casamento: Carmem quer um filho e Alfredo não tem dinheiro sequer para pagar o aluguel. De fato, ele está prestes a ser demitido da editora em que trabalha, porque não consegue vender enciclopédias a domicílio. Tradução: Alfredo é a imagem do fracasso.
A única saída é aceitar uma indecorosa oferta de seu chefe, na qual terá de filmar sua performance sexual para um estudo sueco sobre a libido humana no mundo. A tal pesquisa será publicada em fascículos científicos na Dinamarca e o casal poderá ganhar um bom dinheiro por sua participação. Embora sejam resistentes a essa idéia, o dinheiro e a vontade de ter um filho falarão mais alto – até mesmo da desconfiança de que se trata de pornografia barata.
O grande destaque desta produção – e que a salva, diga-se - é sem dúvida o trabalho dos atores Javier Câmara (Fale com Ela) e Candela Peña (Tudo Sobre Minha Mãe). Trata-se das melhores interpretações da carreira dessa dupla, que não deixa seus personagens derraparem para o burlesco ou o ridículo. Um trabalho generoso que deveria ser mais reconhecido.
