Os diálogos entre o velho mandatário e o jovem Antoine Moreau têm um sabor especial, mesmo que em alguns momentos possam faltar algumas referências para um público estrangeiro sobre os fatos da história da França que ambos comentam com tanta intimidade. Devido à concepção do filme e à naturalidade das interpretações dos dois atores, fica-se com a sensação de que Mitterrand está na verdade conversando consigo mesmo – e vendo-se no jovem no passado. Não terá sido por outro motivo que concordou em abrir-se ao interlocutor, num momento em que se prepara para deixar o poder depois de 14 anos e está morrendo de câncer na próstata.
Essa proximidade da morte atenua um caráter que se percebe poderoso, carismático e pouco habituado a aceitar recusas, permitindo que Mitterrand enxergue o futuro depois de sua partida. Ele se preocupa com seu lugar na História e diz que depois dele só haverá financistas e contadores. Uma frase, ainda que vaidosa, que se mostra profética. O mundo do século XXI não assistiu ainda ao surgimento de grandes políticos, como Mitterrand.
Abre-se espaço à contestação do protagonista através de personagens secundários, como os pais da namorada de Antoine, que são comunistas e não perdoam a traição do presidente, aliando-se com direitistas para continuar no poder. O próprio Antoine terá várias discussões com seu biografado em torno de sua polêmica participação, ainda que curta e secundária, no governo colaboracionista de Vichy, o grande fantasma na consciência francesa. Mitterrand sempre acentua sua entrada na Resistência em 1942 mas Antoine tem dúvida quando à data – e o presidente nunca admite nada que o comprometa.
Permitindo-se ser ambíguo, o filme compõe um fascinante retrato do líder socialista, amparado na sólida performance de Michel Bouquet – que se beneficia também de uma extraordinária semelhança física com Mitterrand. Ao seu lado, Jalil Lespert encarna com total credibilidade o papel de um jovem mergulhado em dúvidas, não só sobre seu próprio personagem, como sobre a própria vida. Ao abrir espaço para retratar também a vida e os problemas de Antoine, a obra ganha maior autenticidade. E aí está a marca de Guédiguian, o grande diretor de A Cidade Está Tranqüila e Marie-Jo e seus Dois Amores.
