Depois de 40 anos de carreira e muita reserva sobre sua vida pessoal e seu processo criativo, o compositor e cantor Bob Dylan resolveu contar tudo – ou quase. Mas, a verdade é que com o primeiro volume de sua autobiografia (publicado no ano passado) e com este documentário, No Direction Home: Bob Dylan, dirigido por Martin Scorsese, Mr. D fala de muita coisa sobre sua vida, suas ideias, sua visão de mundo.
São mais de três horas de documentário, e ainda assim, Bob Dylan continua um mistério. Ainda bem. O documentário de Scorsese passa longe de querer explicar o garoto Robert Zimmerman (o sobrenome artístico ele emprestou do poeta Dylan Thomas) que se transformou num ídolo ou, como ele não gosta muito de ser chamado, ‘a voz de uma geração’. De certa forma No Direction Home: Bob Dylan se inscreve na mesma categorias de filmes do diretor, como Touro Indomável, Os Bons Companheiros e O Aviador, que mostram a forma como o tempo e as adversidades interferem na vida das pessoas – mesmo que às vezes despercebidamente.
Nesse sentido, o que está no centro do documentário é a capacidade (e a necessidade) que o artista tem de se reinventar nos Estados Unidos. Em vários momentos, Dylan conta que embora tenha nascido longe das grandes metrópoles, em Minnesota, ele nunca sentiu que iria ficar lá para sempre. O filme explora desde o seu surgimento, como uma espécie de imitador de Woody Guthrie – seu grande ídolo – até se tornar o visionário que conquistou plateias e deu nó na cabeça de muita gente. Em vários momentos o documentário mostra fãs do cantor reclamando que ele traiu sua própria música.
Além de contar com depoimentos de parceiros e amigos de Dylan, Scorsese também usa diversas imagens do documentário Don’t Look Back (67), de D.A. Pennebaker, que acompanha a turnê do cantor pela Inglaterra em 1965. No Direction Home: Bob Dylan cobre os primeiros 25 anos (1941-66) do cantor sem nunca se tornar indulgente ou falar exclusivamente com fãs – embora, certamente, estes serão os que mais aproveitarão o filme.
Alguns pontos da vida de Dylan, como o envolvimento com as drogas ou a família, sequer são abordados. Mas isso também acontece no livro. No Direction Home: Bob Dylan foi pensado para ser, e é, o retrato de um artista quando jovem. Nesse sentido, Scorsese fez um filme charmoso e empolgante, cheio de música e imagens que evocam uma época (para muitos, infelizmente) deixada para trás.
