03/06/2026
Comédia

Beijos e Tiros

Harry Lockhart é um ladrão fracassado que finge ser ator para fugir da polícia e acaba participando de um teste e sendo enviado para Hollywood. Chegando lá, participa de um laboratório, com um detetive de verdade e se vê envolvido numa trama de assassinato. As coisas pioram ainda mais quando reencontra um amor da juventude.

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Não são poucos os críticos e cinéfilos a acreditar que o roteirista Shane Black criou o cinema de ação moderno, com os sucessos Máquina Mortífera, Predador e O Último Boy Scout. Por essa razão, não faltaram suposições de que o celebrado autor, em seu debut como diretor, tentaria reinventar o gênero.

No entanto, muito oportunamente, o escritor preferiu o caminho inverso, debochando de suas próprias produções e centrando sua história em uma espécie de noir moderno. Ele, assim, bebe nos clichês e nas fórmulas das novelas detetivescas dos anos 40, adaptando-a para o caos ideológico e social de uma Los Angeles contemporânea.

Inspirado pela obra “Bodies Are Where You Find Them” (algo como, ‘corpos estão onde você os encontra’), de Brett Halliday, Black investe numa típica história de investigação (com bastante influência de Raymond Chandler), filtrada através de uma sensibilidade pós-modernista. Complicado? Simples. Ele faz com que a percepção do espectador seja a mesmo dos protagonistas, indistinguíveis.

Feliz ou infelizmente, grande parte do humor de Beijos e Tiros se fundamenta nos comentários do narrador- personagem, que fala diretamente ao público. Brincadeiras à parte, ele joga com a expectativa da audiência, tornando referências literárias, cinematográficas, enfim, culturais, motivo de escrutínio e chacota. Um terreno perigoso, já que se trata de comédia auto-referencial, que pode arruinar uma produção, pelo pedantismo do autor. Mas, para o bem, isso não ocorre aqui.

A história retrata a vida de Harry Lockhart (Robert Downey Jr. num dos seus melhores momentos), um criminoso falastrão que escapa da polícia fingindo que é ator. A história dá tão certo que é enviado para Los Angeles, onde conhece o detetive “Gay” Perry (Val Kimer). A combinação é explosiva. O sarcasmo e a ironia são pontos fundamentais na relação travada entre esses personagens. Afinal, Harry deve aprender com Perry todo o trabalho de investigação para um hipotético papel no cinema. Obviamente, os dois se odeiam.

A trama se complica quando passam a investigar a morte de uma jovem, que tem envolvimento com o passado de Lockart. Ao mesmo tempo, aparecem pistas de que o assassinato envolve uma espécie de máfia e um ator veterano. A bela Harmony complica ainda mais o confuso enredo, deixando o narrador, Harry, ainda mais divertido.

Embora a insólita história pareça nebulosa, a idéia aqui não é fundamentar cada detalhe do mistério, ou mesmo as confusas relações entre eventos e pessoas. Ao que parece, as intrigas são apenas os catalisadores de situações absurdas para contemplar a hilariante dinâmica entre os três personagens principais, ao mesmo tempo em que examina como essas três idiossincrasias tão diferentes enfrentam os disparatados eventos.

Shane Black criou uma excelente obra apoiado em ótimas idéias e um competente elenco. Apesar de ser irregular, a produção diverte e mostra os atores em boa forma. Tal como consagra ainda mais Black como autor, e, agora, diretor.

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