Em seu segundo longa, a cineasta carioca radicada em Brasília Betse de Paula (O Casamento de Louise) explora os bastidores da produção de cinema no Brasil como força motriz de um relacionamento cheio de idas e vindas entre o intelectual Paulo Estrela (Fábio Nasar) e a premiada curta-metragista Celeste Espírito Santo (Dira Paes).
Depois de ganhar diversos prêmios com seus curtas, Celeste acha que chegou a hora de partir para um longa. Ela bem sabe das dificuldades de se fazer cinema no Brasil – principalmente independente. Ou deveria saber. Seu primeiro filme será “Amores Impossíveis”, um drama de ‘épocas’ com cerca de quinze casais retratando as relações amorosas e sociais no país, desde o passado colonial até um futuro pós-cibernético.
Estrela irá conhecê-la em uma oficina de roteiro e acaba se apaixonando pela moça. No princípio não há uma química entre o casal. Até o dia em que ela se muda para a casa dele depois de brigar com os pais. O romance promissor chega a um final prematuro quando ela descobre que ele participava da comissão do governo e não aprovou o seu roteiro.
A arte de fazer cinema irá interferir muito mais no romance entre os dois protagonistas. Celeste vive o calvário daqueles que buscam patrocínio e vai a empresas e políticos procurando alguém que acredite no seu potencial. Enquanto isso, Estrela assiste quase que de longe as dificuldades.
Até o momento em que ele próprio decide ajudar, tornando-se um pequeno produtor de cinema e fazendo o tão sonhado “Amores Impossíveis”. Visitas a empresários, aulas de roteiro e cortes no orçamento do filme transformam-se em acontecimentos corriqueiros na vida do casal.
O roteiro de Celeste & Estrela, assinado pela diretora, com a colaboração de Júlia de Abreu e José Roberto Torero, faz diversas alusões ao cinema e às dores e delícias de se praticar esta arte. Diversas vezes, por exemplo, Celeste perde um patrocínio porque um famoso ator bonitão chega nos empresários antes dela, e, por ser mais conhecido, acaba ganhando o dinheiro.
Esse é apenas um dos cutucões carinhosos que os autores de Celeste & Estrela dão nos colegas de trabalho. É pouco provável que a classe cinematográfica nacional vá ficar ofendida com as brincadeiras e o público certamente irá se divertir com as alusões.
É com conhecimento de causa que a cineasta Betse fala das dificuldades de fazer um B.O. – no jargão da categoria, um ‘filme de baixo orçamento’ – no Brasil. Ela mesma conta que o filme ‘tem muito de autobiográfico’. “É sobre a luta de toda uma geração para fazer cinema no Brasil”, confessa. Como a personagem, a diretora fez diversas oficinas, cursos (inclusive com o cultuado mago do roteiro Syd Field, retratado de forma engraçada no longa), participou de festivais com curtas, entre outras coisas.
Porém, fazer Celeste & Estrela foi um pouco mais fácil do que fazer o seu primeiro filme. “Agora já tinha ganho um prêmio em 2000, depois consegui mais recursos para finalização. Só não consegui para lançar mesmo, por isso estamos fazendo independente”, explica. O longa custou cerca de R$ 900 mil, o mesmo orçamento de O Casamento de Louise.
Celeste & Estrela chega a São Paulo com uma carreira que inclui diversos festivais por todo mundo e prêmios, como o do público no Cine PE - Festival do Audiovisual, em 2003. Fora do Brasil, o longa participou de festivais e mostras em países como Uruguai, EUA e Índia.
Foi na Índia, aliás, que aconteceu uma coisa engraçada. “Uma cineasta de lá veio até mim logo depois da sessão e disse ‘essa é a história da minha vida’”, conta Betse. Celeste & Estrela mostra, enfim, que fazer cinema independente é complicado em qualquer lugar do mundo.
