19/07/2026
Drama

Bens Confiscados

A enfermeira Serena (Betty Faria) é chamada para tomar conta do filho adolescente e rebelde de um senador corrupto. O rapaz é Luís Roberto (Renan Gioelli), cuja mãe se suicidou e nem sabia que era filho do político. Ele é levado à força para uma casa de praia no sul do País. Lá, além da enfermeira, também fica sob a guarda de um capataz violento (Werner Schünemann). Apesar da tensão, uma relação afetiva se forma entre Luís Roberto e Serena.

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Betty Faria é a produtora e atriz principal desta história que tem forte componente político, embora o filme tenha sido escrito e filmado bem antes da crise envolvendo o atual governo. O drama começa com o suicídio de uma estilista famosa. Sabe-se depois que ela é ex-amante de um senador desonesto, que nunca aparece. Ele tem que sumir de circulação depois do escândalo feito por sua mulher (Betty Goulart), que o denuncia por corrupção e infidelidade. Descobrindo que a ex-amante morta lhe escondia a existência de um filho de 16 anos, Luís Roberto (Renan Gioelli, de Meu Tio Matou um Cara), o senador encarrega um de seus assessores (Antonio Grassi) de sumir com o rapaz e escondê-lo no sul do País.

O garoto é levado à força, dopado, para uma casa, onde fica sob a vigilância do violento Lobo (Werner Schünemann). Por insistência do senador, chama-se a enfermeira Serena (Betty Faria) para tomar conta do rapaz. Ela deve recuperar Luís Roberto e mantê-lo afastado da curiosidade de estranhos e da imprensa. Mas Luís Roberto fica revoltado não só por ser mantido prisioneiro mas também por não entender quais os laços entre Serena e seu pai.

O veterano diretor Carlos Reichenbach arma aqui um melodrama marcado por fortes personagens femininas, a exemplo do que fez em seu filme anterior, Garotas do ABC (que acaba de ser lançado em DVD). A principal, Betty Faria (que atuou antes com Carlão em Anjos do Arrabalde, em 1987), numa performance delicada, que foi premiada no Cine Ceará, em junho. Márcia de Oliveira (uma das operárias de Garotas do ABC) marca presença também, como a mulher vitimizada do machão e violento Lobo – outra performance premiada no Cine Ceará, de Werner Schünemann.

Também participam do elenco Marina Person e Fernanda Carvalho Leite (Garotas do ABC), que foram objeto de uma pequena polêmica no Cine Ceará, por causa de uma cena de beijo entre as duas. Uma cena discreta, aliás, que não merecia tanta celeuma. Mais atenção merecia a subtrama do marido espancador vivido por Schünemann. Eduardo Dusek, por sua vez, faz o papel de um húngaro que tenta conquistar a enfermeira interpretada por Betty Faria.

Na verdade, o grande tema do filme é a perda da ética, tanto na política, quanto nas relações humanas. Não poderia ser mais atual, mesmo que a realização do longa seja irregular em algumas seqüências. Mesmo sentindo-se algum constrangimento por criticar um diretor tão autoral, sincero e independente, não há como ignorar que algumas coisas deram errado nesta receita. Ainda que seja preciso reconhecer que um “erro” de Carlão consegue ser mais instigante do que os “acertos” de alguns. E no que ele acerta sempre é em usar o melodrama para falar de ética, na política, nos sentimentos, nas relações humanas.

Chegar aos cinemas, aliás, foi um desafio para este filme. Estava pronto há um ano atrás, quando foi exibido na 28ª Mostra BR – Mostra Internacional de Cinema. Rodou outros festivais e acumulou prêmios em Recife (Cine PE) e Fortaleza (Cine Ceará). Ainda assim, custou a encontrar distribuidor, o que felizmente aconteceu. Um dilema que não deveria afetar um realizador com o currículo de Carlão, mas ainda acontece. Prova de que o cinema brasileiro ainda precisa percorrer algumas etapas para firmar-se como indústria.

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