04/06/2026
Drama Comédia

Família Rodante

Ao completar 84 anos, Emília recebe o convite para ser madrinha de um casamento em sua cidade natal. Para fazer a longa viagem, que irá cruzar a Argentina, ela intima todas suas filhas, genros, netos e bisnetos. Ao longo do percurso, algumas tensões familiares vêm à tona.

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Com seu terceiro longa, Família Rodante, o argentino Pablo Trapero (O Outro Lado da Lei) confirma ser um dos melhores cineastas de seu país da nova geração, ao lado de Lucrecia Martel (A Menina Santa). Aqui, no entanto, ele traz um registro muito mais leve e com uma aura cômica, bem longe da densidade de seu filme anterior. Mas não se deixe enganar: não é porque não há um drama psicológico ou profundo que este é um filme menor.

Assistir a este longa é como ser convidado para uma reunião de família da qual não conhecemos ninguém, mas, ainda assim, seremos jogados para dentro de um turbilhão de relacionamentos e conflitos que envolvem quatro gerações de um clã. Não que ao final da festa iremos conhecer melhor essas pessoas - afinal, passamos apenas algumas horas com elas. O filme acaba extraindo algumas verdades sobre o quanto é complicado e necessário aturar o outro só porque dividimos laços sangüíneos.

O centro da saga familiar é a matriarca octogenária Emilia (Graciana Chironi, avó do diretor). No dia de sua festa de aniversário de 84 anos, ela reúne seus filhos e netos. No mesmo dia, recebe um telefonema convidando-a para ser madrinha de casamento de uma sobrinha, que nunca conheceu, em sua cidade natal, a qual não visita há anos. A vovó faz questão de que todos os seus familiares, filhas, genros, netos e bisnetos a acompanhem na viagem.

Para ir de Buenos Aires a Missões, uma pequena cidade na fronteira com o Brasil, as quatro gerações irão se acomodar – com uma certa dificuldade, é claro – em uma espécie de microcasa construída sobre um Chevrolet Viking 56. Ao colocar toda essa gente num mesmo ambiente, é como se Trapero criasse um microcosmo da Argentina contemporânea, explorando por meio de seus personagens, as frustrações, ansiedades, sonhos e alegrias de um povo.

Os diversos incidentes que acontecem ao longo da jornada só servem para acirrar os ânimos e aumentar a tensão entre os parentes. Brigas, descobertas, verdades até então reprimidas vão aflorando a cada novo quilômetro percorrido. Dessa forma, o cineasta transcende a representação do local para atingir o universal, falando dos tão complexos, e tão necessários, laços familiares.

Com sua câmera quase hipodérmica – algo que partilha com o cinema de Lucrecia Martel –, Trapero mostra que o conhecimento popular pode estar certo. Família é tudo igual, só muda de endereço.

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