03/06/2026
Drama

Apenas um beijo

Casim Khan é um jovem DJ muçulmano, de origem paquistanesa e nascido e criado em Glasgow que procura juntar dinheiro com um amigo para abrir sua própria casa noturna. Seu casamento já está arranjado desde a infância com uma paquistanesa que ele nem conhece. Mas ele encontra motivos para enfrentar a tradição ao se apaixonar pela professora de música Roisin, que é católica e divorciada.

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Quem procura uma história de amor profunda e intensa, encontra aqui. Mas, em se tratando de um filme de Ken Loach, o romance não é tudo. Mesmo sem ter uma mensagem (pelo menos não didaticamente), com certeza o filme tem contexto – o de uma sociedade multiétnica e multirreligiosa, na Escócia, que não vê normalmente o amor entre um descendente de paquistaneses muçulmano, Casim (Atta Yaqub), e uma irlandesa católica e loura, Roisin (Eva Birthistle).

Para eliminar de saída qualquer parcialidade – afinal, Loach é inglês, branco e foi pelo menos educado na religião cristã -, a história começa ouvindo o outro lado. Numa sala de aula, ouve-se discurso de uma muçulmana, Tahara (Shabana Akhtar Bahsh), a combativa irmã de Casim, dizendo aos colegas lourinhos porque é contra o que considera a simplificação ocidental em relação a muçulmanos, como ela. Tahara defende sua própria mistura pessoal: é uma escocesa filha de paquistaneses radicados no país há mais de 30 anos, muçulmana e, como a maioria dos colegas, torcedora do Glasgow. Em outras palavras, está pedindo licença para existir como é. Uma afirmação do clássico “direito à diferença”.

A fala de Tahara, uma personagem secundária, abre espaço para a trama central, do romance complicado que tem tudo a ver com isso. Casim é um DJ, formado em contabilidade, que procura montar sua própria empresa de eventos com um amigo. Sua vida pessoal já está definida: seu casamento com uma paquistanesa que não conhece foi arranjado na infância, entre as duas famílias. Qualquer tentativa de romper este compromisso, que segue costumes milenares da sociedade paquistanesa, é uma declaração de guerra capaz de fraturar drasticamente a família. É o que acontece quando ele se apaixona por uma das professoras do colégio da irmã, Roisin.

Católica não-praticante, Roisin casou-se muito jovem e divorciou-se pouco depois, não por nenhum conflito sério, mas porque não abriu mão do que ela chama de “brilho no olho”. É o que ela encontra junto a Casim. Depois de um fim de semana idílico na Espanha, os dois devem voltar e reencontrar-se com o dilema de Casim – para quem optar pelos próprios sentimentos significa romper com toda a sua família.

Comprovando por si mesma que a intolerância não mora somente de um lado do mundo, a professora Roisin vai enfrentar sua própria provação quando precisa cumprir uma exigência medieval para manter seu emprego na escola em que trabalha: obter do pároco da igreja de seu bairro um certificado de que ela é uma boa católica. O que ele nega, aos berros, jogando em sua cara a condição de divorciada liberal que vive maritalmente com um muçulmano, o que é ainda pior, segundo o padre.

A colocação destas pressões, do padre por um lado, da extremada família de Casim, por outro, não atrapalha a narrativa, como havia o risco de acontecer. Estes detalhes apenas esclarecem a força dos costumes e preconceitos, bem como o espantoso conservadorismo da Igreja Católica escocesa. Justo agora no século XXI que muita gente pensou que a modernidade estava definitivamente estabelecida, que o feminismo já havia produzido os frutos necessários e uma era de tolerância mundial com as diferenças estava madura para vigorar, Ken Loach vem lembrar que vivemos tempos obscurantistas. Se bem que, ao contrário do passado, sejam também inúmeras as formas de enfrentar esse clima – até o cinema incansavelmente humanista de Loach, autor dos poderosos Meu Nome é Joe (1998), Pão e Rosas (2000), e dos inexplicavelmente inéditos no circuito brasileiro The Navigators (2001) e Sweet Sixteen (2002). Mesmo Apenas um Beijo demorou quase dois anos para chegar ao circuito nacional: só havia sido exibido antes na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2004.

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