Quando pequena, Maria Bethânia queria ser artista ou trapezista. O falso dilema infantil foi resolvido com sua transformação numa das cantoras de maior personalidade e menos medo de correr riscos do Brasil. Mesmo com suas raízes tão fincadas no País, a cantora baiana foi descoberta pelo documentarista francês Georges Gachot e transformou-se no objeto deste filme, produzido pelo canal francês ARTE e exibido na Mostra Internacional de São Paulo em 2005.
O impacto da teatralidade de Bethânia no palco causou uma guinada na carreira do documentarista francês, radicado na Suíça e especializado há 15 anos em filmes sobre música clássica. Ele descobriu a intérprete baiana em 1998 no Festival de Montreux e, como conta em entrevista exclusiva concedida durante a Mostra paulistana, sofreu um “choque com sua presença em cena, seus pés nus”. A partir dali, interessou-se em descobrir mais sobre a cantora e a música brasileira, um processo de pesquisa que levou cinco anos. Finalmente, em 2003, Gachot criou coragem e enviou a Bethânia um de seus documentários musicais clássicos, Martha Argerich, Conversas Noturnas, sobre a pianista argentina amiga do brasileiro Nelson Freire e, por coincidência, exibido também na Mostra paulistana de 2005.
Bethânia vence aqui sua proverbial aversão à exposição de sua intimidade às câmeras. A vantagem é que a cantora se explica para o cineasta francês de uma maneira que talvez não fizesse, em se tratando de um brasileiro, até por achar desnecessário. E o público ganha com isso, porque a cantora está visivelmente à vontade. E o filme nunca se torna didático por isso.
Ela conta histórias familiares, muitas delas com o irmão mais velho, Caetano – que escolheu seu nome a partir de uma canção de Nelson Gonçalves, mesmo tendo apenas quatro anos. Uma das mais engraçadas lembra que os dois costumavam brincar de faquir no alto de uma árvore – o que significava ficar lá no alto sem fazer nada, por horas a fio. O que, para Bethânia, foram seus primeiros exercícios de concentração.
O documentário entrevista, além de Caetano, também Chico Buarque de Holanda, de quem Bethânia vem sendo uma das maiores intérpretes – como na antológica “Olhos nos Olhos”. Ela lembra de alguns compositores que já morreram, como Vinicius de Moraes (de quem se lembra o “Samba da Benção”) e Gonzaguinha – que chegava a aceitar mudanças de palavras em algumas canções, por sugestão de Bethânia. “Há palavras que eu não digo, daí pedi para mudar”, conta ela, sem dizer quais são essas palavras proibidas em seu vocabulário.
Ao mesmo tempo que revela estes segredos de Bethânia, que seu público fiel do Brasil terá prazer em reencontrar, o filme tem a felicidade de filmá-la dividindo o palco com outras cantoras, como Nana Caymmi e Miúcha, ampliando o alcance do documentário – que já foi exibido na Europa em 2005 – num pequeno extrato da música brasileira de melhor qualidade.
Tal como aconteceu no documentário Vinicius, a melhor participação vem de Chico Buarque de Holanda, quando define que a utopia de um país possível está preservada nesse manancial de beleza do cancioneiro do Brasil.
