Fácil entender porque o rapaz abandona a casa paterna, que abriga uma família disfuncional até a última gota. A mãe, uma poderosa perua empresária, circula pelos corredores sempre ao telefone, resolvendo negócios ao mesmo tempo que desanca os empregados e o marido, um velho bêbado que ela não deixa sair do quarto (interpretado pelo próprio Iosseliani). As três crianças da casa são tocadas de um lado para outro como um rebanho indesejado, sem licença nem espaço para brincar, contrastando com a total liberdade de movimentos de um gigantesco pássaro de estimação, admitido na sala de jantar até mesmo durante as freqüentes festas. Não são menos exóticos os empregados, como a arrumadeira que limpa vidraças amarrada em suas cordas e equipamentos de escalada de muros.
Um belo dia, o mundo dos pobres da cidade fará uma visita clandestina à mansão, quando o rapazinho traz seus novos amigos para uma visita à bem-fornida adega local, recheada de vinhos e champanhes das melhores procedências. Nessa ocasião, o acaso reúne o patriarca bêbado e uma insuspeita alma gêmea, um vagabundo de rua que, como ele, tem um cachorro e ama um bom copo. Uma amizade promissora, que dá ao filme a oportunidade de fazer um delicioso elogio à vagabundagem e mandar um recado libertário que evoca o Jean Renoir de Boudu Sauvé des Eaux (1932) - esta, uma história em que um vagabundo recusava os confortos da assim chamada civilização.
