Essas simpáticas e fofas criaturinhas – como as descreveu um crítico do The New York Times – trazem uma receita certeira de sucesso ao “contar” (vozes masculinas e femininas “dublam”as aves, como se elas estivessem pensando alto) sua própria luta pela sobrevivência e perpetuação da espécie nas gélidas vastidões da Antártida.
Quem acompanhou o trailer exibido nos cinemas nas últimas semanas com certeza já reservou um tempinho para se emocionar com a longa marcha dos pingüins imperadores que anualmente procuram a colônia (como é conhecido o local de acasalamento e desova) para germinar o único ovo que cada macho terá como tarefa proteger do frio para que choque ao longo de dois meses.
Resultado de 13 meses de trabalho de Jacquet e sua equipe – que enfrentaram as mesmas condições adversas para filmar cada etapa da procriação –, A Marcha não necessita de nenhum efeito especial para prender o espectador na cadeira. A câmera apenas acompanha os pingüins em sua luta pela sobrevivência e deixa às pessoas a tarefa de torcer para que cada ave consiga cumprir seu destino, o de gerar uma nova vida.
A marcha ganha contornos épicos quando a câmera se afasta e permite a visão de uma longa fileira de milhares de pingüins, caminhando lentamente numa direção que só eles conhecem. Os mais fracos não resistirão, alguns desajeitados se perderão do grupo e o fim que os aguarda será trágico.
Mas a maioria consegue chegar à colônia e o período de namoro e acasalamento – sujeito a algumas brigas entre machos – é registrado em cenas de cartão postal. Cada fêmea porá seu ovo e deixará a tarefa de chocá-lo ao macho. Tarefa nada fácil, pois o primeiro passo será passar o ovo, protegido pelas penas da fêmea, para seu parceiro. Não raro, a operação é feita de forma desajeitada e o ovo congela. Para o casal, o sacrifício de um sonho que só voltará a se repetir em um ano.
O período seguinte é igualmente difícil, pois os machos suportarão as nevascas do inverno sem praticamente se mexer, com o ovo protegido entre as pernas. Numa ação solidária, eles formam uma barreira com seus corpos para manter o grupo aquecido. As fêmeas, exauridas, abandonaram a colônia e partiram em busca de alimento. Terão de encontrar comida e retornar, dois meses depois, para alimentar os filhotes já nascidos. É quando os pais, que já cumpriram sua missão, podem abandonar os pequenos para enfim se alimentarem.
Todo este esforço é pontuado não só pela narração (que, na versão brasileira, cabe a Patrícia Pillar e Antônio Fagundes), como pela música. Nessa trilha sonora está provavelmente o ponto fraco da epopéia: é gritante e invasiva demais. Melhor seria se o diretor tivesse confiado mais na beleza indiscutível de suas imagens e na energia amorosa desses esplêndidos animais e poupasse o público dos adereços. Aí o filme poderia ser perfeito.
