03/06/2026
Drama

As Chaves de Casa

Depois de ter rejeitado o filho deficiente desde o nascimento, um pai (Kim Rossi Stuart) retoma contato com o garoto (Andrea Rossi), agora com 15 anos. Numa viagem a Berlim, os dois começam a conhecer-se, enfrentando as naturais dificuldades da convivência e das limitações do menino.

post-ex_7
O novo filme do cineasta italiano Gianni Amelio é um exemplo de emotividade conjugada com a contenção. Um ótimo exemplo, aliás, demonstrando que há muito mais do que um modo de abordar o delicado tema da relação entre um pai e um filho deficiente. E o que é melhor: sem deixar de dizer tudo aquilo que se propôs a dizer.

Comprovando sua habilidade para escalar atores, Amelio (de Ladrão de Crianças e Assim Eles Riam) acertou em cheio na dupla principal, composta pelo adolescente Andrea Rossi, que visivelmente compartilha a deficiência física do seu personagem, Paolo, e Kim Rossi Stuart, no papel do pai, Gianni.

O filme começa, sintomaticamente, numa estação de Milão, de onde partirá um trem para Berlim onde se dará o primeiro encontro real entre pai e filho. Aos poucos, se contará o motivo desta distância, que tem sua origem na negação, por parte do pai, do próprio fato de que teve um filho com sérias deficiências físicas e mentais.

Criado pelos tios, o menino entrega-se ao conhecimento desse estranho que se diz seu pai com curiosidade e sem a censura que se poderia esperar. Com uma sinceridade desconcertante, ensina este pai a lidar com seu corpinho deformado por uma distrofia grave, dizendo-lhe como ajudá-lo a vestir a camisa mas dispensando seu excesso de proteção a cada vez que caminha. Um dos maiores orgulhos de Paolo é poder andar sozinho, ainda que lentamente e com a ajuda de um apoio mecânico.

O hospital de Berlim aonde o garoto é submetido a exames é também o posto onde Gianni encontra uma outra mãe capaz de abreviar seu período de aprendizado com o filho: Nicole (Charlotte Rampling), que há 20 anos cuida da filha Nadine (Alla Faerovich), para quem o simples ato de falar é um esforço extremo e só entendido pela mãe.

Adaptando livremente o livro “Nati due volte”, de Giuseppe Pontiggia, o cineasta compõe um drama contido, ao qual não faltam emoções difíceis: medo, rejeição, insegurança, sentimento de fracasso, desilusão, culpa. Mas é bem-sucedido no esforço de colocar o foco da história onde ele cabe melhor, na elaboração de um vínculo entre pai e filho, que evolui sensivelmente, ainda que longe do cardápio edulcorado que é tantas vezes imposto a esse tipo de assunto no cinema. O drama ganha assim um contorno de maior autenticidade. Embora seja difícil resistir às vezes à tentação das lágrimas, em nenhum momento o filme é manipulador de emoções fáceis. Com isso, tudo o que ele procura contar ganha respeito e a possibilidade de permanecer por longo tempo na memória do espectador atento e disponível que requer.

Uma música brasileira: “Deus do Fogo e da Justiça”, na voz de Virgínia Rodrigues, embala a subida dos créditos finais. Mais um motivo para acompanhá-los, junto com as imagens de interação entre os dois atores principais.

post