04/09/2026
Documentário

Suíte Havana

Um dia na vida de diversos moradores de Havana, capital cubana: um sapateiro, um trabalhador na linha férrea, uma aposentada vendedora de amendoins, um funcionário de lavanderia de hospital, um menino com síndrome de Down e sua família.

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Um dia na vida da capital cubana é mostrado neste registro semidocumental, que acredita acima de tudo na força das imagens de seus protagonistas – que por isso tem pouquíssimas falas. Os personagens são pessoas simples, de todos os tipos e idades, absolutamente comuns. Pessoas que estudam, trabalham. Sobretudo trabalham.

A grande sacada do filme de Fernando Pérez é construir com eficiência a ligação entre a cotidianeidade e o paradoxo que marca a vida diária em Cuba. A singela troca de guarda entre os vigias da estátua de John Lennon numa praça (para impedir o insistente roubo de seus óculos), o funcionário de lavanderia hospitalar que leva ao sapateiro suas sandálias de travesti, o garoto que de dia é pedreiro, de noite bailarino clássico, todos esses contrastes emergem da tela com total autenticidade. E, o que é melhor, sem nenhum discurso, nenhuma piedade, nenhum julgamento. Eles apenas são.

Ainda que difícil, a normalidade da vida dessas pessoas é o que mais salta aos olhos. Desse modo, não se verá nenhum apelo no retrato da família formada por um adorável menino com síndrome de Down, que estuda numa escola normal e volta para casa para conviver com os avós e o pai, viúvo. Nessa normalidade, muitos, como eles, encontram uma discreta alegria.

Não faltam alguns semblantes amargurados, como o da velhinha aposentada que sai diariamente para vender na rua os seus amendoins, complementando uma renda certamente mínima. O afeto que ela troca com o marido doente que ela mantém em casa não é menos consistente.

Todos os personagens são reais, vivendo sua própria rotina, embora fique claro que se construiu seus encontros e reencenou seu cotidiano, apenas na medida necessária para o filme existir. O recurso nunca vai tão longe que lhe retire veracidade.

Uma boa decisão foi deixar Fidel Castro de lado. Evita-se mostrar seus retratos, falar da revolução ou da pobreza do país – isto tudo é evidentemente parte da ilha, tanto quanto a iluminada resistência deste povo. A grandeza do mistério humano está em cada cena.

Merecidamente, Suíte Havana colecionou prêmios, sendo o grande vencedor do Festival de Havana/2003 e o melhor filme latino de Gramado/2004.

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