A grande sacada do filme de Fernando Pérez é construir com eficiência a ligação entre a cotidianeidade e o paradoxo que marca a vida diária em Cuba. A singela troca de guarda entre os vigias da estátua de John Lennon numa praça (para impedir o insistente roubo de seus óculos), o funcionário de lavanderia hospitalar que leva ao sapateiro suas sandálias de travesti, o garoto que de dia é pedreiro, de noite bailarino clássico, todos esses contrastes emergem da tela com total autenticidade. E, o que é melhor, sem nenhum discurso, nenhuma piedade, nenhum julgamento. Eles apenas são.
Ainda que difícil, a normalidade da vida dessas pessoas é o que mais salta aos olhos. Desse modo, não se verá nenhum apelo no retrato da família formada por um adorável menino com síndrome de Down, que estuda numa escola normal e volta para casa para conviver com os avós e o pai, viúvo. Nessa normalidade, muitos, como eles, encontram uma discreta alegria.
Não faltam alguns semblantes amargurados, como o da velhinha aposentada que sai diariamente para vender na rua os seus amendoins, complementando uma renda certamente mínima. O afeto que ela troca com o marido doente que ela mantém em casa não é menos consistente.
Todos os personagens são reais, vivendo sua própria rotina, embora fique claro que se construiu seus encontros e reencenou seu cotidiano, apenas na medida necessária para o filme existir. O recurso nunca vai tão longe que lhe retire veracidade.
Uma boa decisão foi deixar Fidel Castro de lado. Evita-se mostrar seus retratos, falar da revolução ou da pobreza do país – isto tudo é evidentemente parte da ilha, tanto quanto a iluminada resistência deste povo. A grandeza do mistério humano está em cada cena.
Merecidamente, Suíte Havana colecionou prêmios, sendo o grande vencedor do Festival de Havana/2003 e o melhor filme latino de Gramado/2004.
