04/06/2026
Drama

Roma, Um Nome de Mulher

Aos 60 anos, o escritor Joaquin Góñez tem fama e prestígio. Mas não é feliz. Pressionado pela necessidade financeira, dispõe-se a escrever sua autobiografia, com a ajuda de um assistente jovem, que passa a limpo suas anotações no computador. Nestas memórias, recorda a figura fascinante de sua mãe, Roma.

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Não deixa de ser uma agradável coincidência a estréia deste notável filme argentino, do diretor Adolfo Aristarain (Lugares Comuns) uma semana antes do não menos esplêndido Capote, de Bennet Miller. É como se, por um capricho da imprevisível programação de cinema, um filme chegasse a tempo de preparar o caminho do outro.

Não porque tenham exatamente o mesmo tema, mas, cada um à sua maneira extremamente peculiar, ambos tratam de histórias em torno de escritores e do ato de escrever e nem por isso são de interesse apenas dos profissionais do ramo. Bem ao contrário. Tanto um quanto o outro são extraordinários pela forma como constroem um universo de emoções complexas capaz de arrebatar seus espectadores.

Aos 62 anos, Adolfo Aristarain é um dos veteranos mais clássicos do cinema argentino. Clássico no sentido de acreditar numa dramaturgia sólida, que alguns podem até considerar convencional, por puro preconceito. A solidez dramática e a consistência das atuações e dos diálogos são o ponto forte de todos os trabalhos deste cineasta. Não é diferente aqui, onde a história elege um protagonista na faixa dos 60 anos, o escritor Joaquin Góñez (José Sacristán, que atuou em outro filme do diretor, Um Lugar no Mundo, premiado no Festival de Gramado em 1992).

Como sempre nos filmes de Aristarain, os dilemas dos personagens pertencem à vida adulta. No outono de sua vida, Goñez é um escritor consagrado. Mas já não encontra na literatura a mesma paixão que o moveu um dia. Ainda assim, tem compromissos financeiros e quer partir numa longa viagem. Convence, então, seu editor a lançar sua autobiografia. E contrata um jovem jornalista, Manuel Cueto (Juan Diego Botto), para digitar no computador suas quase indecifráveis anotações, feitas sempre à mão.

O relacionamento às vezes áspero entre estes dois homens, que são quase um espelho um do outro, é mediado pela figura essencial de Roma (Susú Pecoraro), a mãe de Góñez evocada em suas memórias. Esta mulher fascinante é a espinha dorsal da personalidade do escritor maduro e constitui também o lugar onde se fixa a pulsação emocional de toda a história.

Momentos recentes da história argentina, como a movimentação estudantil e a ditadura militar dos anos 70 e 80 darão, como é marca registrada do diretor, a moldura histórica que enraíza os personagens. Não faltam humor e afeto no delineamento dos demais integrantes da família de Góñez. Um filme de Aristarain costuma ser assim, um caleidoscópio onde se encaixam todas as peças de uma vida inteira e real. Mas é só cinema de alta qualidade e por isso mesmo clássico.

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